
As técnicas projectivas, são muito utilizadas pelos psicólogos como coadjuvantes da entrevista clínica, refiro-me a todos os aspectos relevantes que ele foi capaz de recolher do sujeito, quer através da observação quer através de atenta escuta.
Os testes projectivos baseiam-se num mecanismo psicológico denominado “projecção”. Parte-se do princípio que todos nós, perante um desenho, uma mancha, um borrão, temos algo a dizer sobre ele, isto é, interpretamos o material dado, conforme a nossa estrutura psicológica. Estamos, com esse movimento, a projectar-nos, a dar indicações preciosas ao psicólogo sobre a nossa estrutura da personalidade; personalidade que deve ser vista como uma unidade integrativa.
Um dos testes projectivos mais utilizados na clínica é sem dúvida o teste de Rorschach, psiquiatra suíço que o desenvolveu e aplicou em centenas de sujeitos. O teste consiste em dar possíveis interpretações a dez pranchas com manchas de tinta simétricas em que a partir das respostas obtidas é possível obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo; não esqueçamos porém, que as qualidades psicológicas do testador têm importância nos resultados.
Em suma, o processo de resposta produz-se num contexto em que a interacção e a intersubjectividade estão sempre presentes.
Quando utilizamos o conceito “projecção” ele surge sempre associado à percepção. O estímulo externo é a mancha que tem características perceptivas precisas mas ambíguas. Estas características vão obrigar o sujeito a estabelecer um conjunto de estratégias onde a percepção ocupa um lugar central. Na presença do cartão, o sujeito movimenta-se entre o real e o imaginário, entre o objectivo e o subjectivo.
Os dez cartões da prova de Rorschach, têm características singulares no campo perceptivo, pelo seu carácter unitário ou disperso, sendo susceptíveis de uma criação simbólica centrada em dois eixos: a representação de si e a representação da relação. É justamente pela forma como o sujeito organiza a história em torno das manchas impressas nos cartões, que ele revela a sua problemática fundamental. Percepção e projecção surgem então muito relacionadas, participando na delimitação do MUNDO EXTERNO e INTERNO do sujeito e na sua REPRESENTAÇÃO.
O processo projectivo leva a que só sejam investidas pelo sujeito certas excitações que reactivam traços mnésicos individuais; há uma selecção de estímulos que são integrados no seu sistema pessoal.
Cada um de nós filtra a realidade diferentemente e fá-lo de acordo com motivações pessoais. É a realidade externa, aquilo que percebemos, que vem reactivar os traços mnésicos que referi acima, dando lugar posteriormente ao respectivo movimento projectivo. O sujeito tem que mobilizar-se para ordenar as percepções externas e internas. É possível que o psicólogo assista a oscilações, movimentos subtis entre a percepção e a projecção; há como que uma negociação entre o dentro e o fora. O produto expresso pelo sujeito mostra igualmente uma ressonância fantasmática. A realidade externa, colorida com essa ressonância fantasmática gera um equilíbrio entre o dentro e o fora.
É através do estímulo (cartão) que o sujeito mergulha do processo primário para o processo secundário (o pensamento através da palavra), sendo que o imaginário é aqui extremamente importante. No teste é dito ao sujeito que não existem respostas certas nem erradas e que tem toda a liberdade quanto ao número de respostas a dar (normalmente dá duas respostas). Essas respostas tem um suporte perceptivo, mas espera-se que o sujeito as enriqueça com a sua capacidade de sonhar de imaginar, de ser criativo. A cotação do teste é um processo um pouco moroso, obedecendo a algumas regras, (que dada a sua complexidade não vou aqui referir) que não podem deixar de ser consideradas, de forma a que a subjectividade do psicólogo, possa, na medida do possível, não interferir significativamente no diagnóstico.
Fernando Barnabé
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