sábado, 28 de novembro de 2009

Crianças irrequietas (hiperactivas ou hipercinéticas) (I)


Irrequietude ou hiperactividade significam o mesmo, são descritivos de movimentação e, como tal, não são uma entidade nosológica (referente a patologia).

A hiperactividade é um sintoma que ocorre em numerosos casos clínicos, por exemplo em crianças psicóticas, em crianças com lesões cerebrais, com perturbações da personalidade e em crianças com problemática neurótica; no entanto este sintoma em regra vem agregado a outros sintomas e o importante é perceber a cauda desta perturbação neurótica. O que há de comum e de diferente?

A criança “normal” é irrequieta até aos dois, três anos, o que é um bom sinal, porque a causa desta irrequietude está relacionada com as aprendizagens do seu funcionamento corporal (locomoção). A criança desloca-se em busca de situações que lhe interessam ou afasta-se das que não lhe agradam. À medida que vão construindo uma mente capaz, é que a aventura motora vai dar lugar à aventura mental – o desenvolvimento da capacidade simbólica. Não existindo capacidade simbólica as crianças não estão aptas a relacionar e estabelecer ligações entre conceitos.

As crianças irrequietas, pelos 5,6 e 7 anos foram crianças que não conseguiram passar da aventura motora para a aventura do pensamento. Então, esta falta de acalmia provêm de onde?Em regra, quando passamos de uma actividade para outra, paramos durante o tempo em que essa situação mostra ter algum interesse. Pode no entanto haver circunstâncias em que a situação não nos agrada, incomoda-nos mesmo e então procuramos outras ocupações. A criança pequena vai à procura de uma tarefa; ou se sente interessada ou a situação incomoda-a; então, rapidamente procura outras experiências. Por detrás desta movimentação excessiva podemos encontrar várias formas de ansiedade que determinam novas procuras. Estas ansiedades podem ter uma natureza depressiva ou persecutória. Nas primeiras, há uma falta de interesse pelas situações; o mal-estar podemos englobá-lo nas ansiedades persecutórias.

Porque é que a criança irrequieta não pára? Será que tudo é desinteressante? Será que os objectos nunca correspondem às expectativas? Esta criança já tem presente um núcleo de personalidade que a leva a construir de um modo depressivo ou persecutório a sua personalidade. Podemos perguntar-nos então, como é que ele se constrói?Houve provavelmente situações precoces que a levaram a construir um self entre "desamparado e perseguido". As suas primeiras experiências não lhe induziram um sentimento de previsibilidade, de confiança básica em relação ao que lhe acontece.

A criança irrequieta, experimenta pois a realidade, de uma forma deformada, o resultado é a procura/fuga constante que vai secundariamente trazer-lhe complicações. Assim, em profundidade, nada sabe, o que acaba por reforçar a sua desconfiança básica, na medida em que encontra poucos aliados externos que a ajudem a contrabalançar a sensação de “nada ser”. Estas crianças necessitam de concentração, porque senão geram-se círculos viciosos que agravam o problema original. Encontram na movimentação excessiva alguma acalmia, porque isso depende delas e são incapazes de estar sentadas, de se concentrarem podendo eventualmente perturbar o regular funcionamento de uma aula. Algumas demonstram agressividade para, dessa forma, provocarem respostas que sejam contentoras da sua ansiedade. Apesar destas problemáticas, crianças há, cujas aprendizagens se processam de forma positiva, embora com algumas dificuldades.

Há professores que têm algumas competências para lidar com estas crianças, enquanto outras apresentam alguma limitações, por desconhecerem o porquê de tanta agitação. Regra geral, estas crianças funcionam melhor em pequenas turmas. Em grandes turmas, se o professor não estabelecer uma boa relação com a criança, esta pode vir a ser excluída e abandonada às suas próprias dificuldades.

Muitas destas crianças dormem mal, sonham pouco, não havendo uma passagem gradual entre a vigília e o sono. Têm com facilidade acidentes, porque não pensam ou pensam mal, devido às suas capacidades excessivas de movimentação. Há como que um ímpeto forte para a aventura, sem uma nítida consciência dos riscos.
(continua...)

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