
Quando alguém por contingências do seu percurso existencial procura um psicólogo, este, para além de tentar estabelecer uma relação de empatia e de confiança com a pessoa, aspecto fundamental na relação terapêutica, deve proceder, a fim de obter informação relevante acerca do seu funcionamento mental, a um Exame Psicológico de modo a ajudá-la a superar essa fase crítica do viver.
O Exame Psicológico pressupõe uma situação relacional em que o especialista aplica os seus métodos psicológicos e as suas bases teóricas de forma a aceder à compreensão do sofrimento do paciente. Supõe sempre um pedido (implica uma ética) e uma relação especial, que lhe permite, em muito poucas sessões, formular hipóteses sobre uma determinada problemática pessoal que se encontrava latente.
Quando o pedido é feito pelo próprio implica um sinal de reconhecimento de que tem algum problema e que necessita de ajuda; mas, existem casos, em que são os familiares ou amigos que o convencem a marcar consulta; aqui a pessoa pode não admitir qualquer dificuldade e admitir que vem à consulta por incapacidade para resistir à pressão. Acontece muitas vezes, por exemplo, com pessoas que abusam do consumo de bebidas alcoólicas, pela negação da sua dependência.
ETAPAS DO EXAME PSICOLÓGICO
Uma avaliação psicológica apresenta uma primeira parte que gira em torno da anamnese (história da pessoa), elaborada a partir da entrevista com o paciente ou com os pais (se o paciente for criança), através da observação directa. Esta fase é fundamental porque nos dará a possibilidade de construir uma hipótese sobre o funcionamento mental e sobre o sentido do sintoma do paciente. É pois, uma elaboração compreensiva que nos pode levar por vezes a contradições, pela existência de nuances e incertezas. Num segundo momento vamos utilizar, os testes, segundo as necessidades dependentes da hipótese e das conclusões de base.
A escolha dos testes deriva das dúvidas que podem surgir na anamnese. Se estamos, por exemplo, perante um problema de insucesso escolar, podemos utilizar uma WISC (teste que permite medir o coeficiente de inteligência e nós dá informação relevante sobre o funcionamento mental da criança) ou utilizar posteriormente um RCH (teste projectivo), isto se não ficarmos satisfeitos com os resultados que obtivemos na WISC sobre a natureza profunda da criança; é portanto um diagnóstico progressivo.
Posteriormente à aplicação destes testes, devemos emitir um diagnóstico, para em seguida formularmos um prognóstico (o que se nos oferece dizer sobre o estado de evolução do paciente) e emitimos um relatório caso nos seja solicitado. Na sua elaboração é necessário não cair na linguagem do “rótulo”, atribuindo um número, por exemplo ao Q.I. da pessoa. Toda a compreensão da estrutura mental de uma criança por exemplo, não se esgota no Q.I se tivermos em conta, por exemplo, que as crianças sobredotadas apresentam problemáticas que estão para além da sua inteligência.
O que está em jogo, portanto, são questões globais – cada pessoa é extremamente complexa e não a podemos analisar reduzindo-a a um número. Temos que tentar descobrir o seu mundo, não devendo pensar apenas na vertente negativa do que se nos depara relativamente aos resultados que obtivemos, mas encará-los de um modo positivo, tentando encontrar a melhor forma de, em conjunto, resolvermos a sua problemática.
Podemos eventualmente ter de fazer mais do que uma entrevista, para assegurar-nos de algumas particularidades do desenvolvimento da pessoa que não ficaram completamente esclarecidas (em regra quatro ou mesmo cinco).
De uma maneira geral e considerando que é uma criança que vem à consulta acompanhada dos pais, devemos estruturar a sessão de forma a receber a mãe e a criança em primeiro lugar procurar um espaço de diálogo posterior com os pais, nunca negligenciando o diálogo com o progenitor do sexo masculino.
A criança deve ser levada muito a sério e deve sentir que tem o nosso apoio na resolução do seu problema. Do mesmo modo, devemos procurar estar em consonância com os pais, criando um clima isento de rivalidades, propício ao trabalho em conjunto. Uma avaliação psicológica pressupõe assim, um clima afectivo; na transmissão dos seus resultados, por exemplo, devemos estar com os pais e a criança num clima de confiança e de harmonia.
É necessário também assumir o "bizarro" da situação, quando o psicólogo, numa primeira consulta tem que brincar com a criança, mesmo sem a conhecer. A questão da “arte” em Psicologia, intimamente relacionada com o perfil do psicólogo, passa pela forma e pelo modo pelos quais este consegue impor limites, preservando a possibilidade de um entendimento progressivo. No próximo artigo focarei a minha atenção nos aspectos relacionados com a própria entrevista clínica em Psicologia e nos três tipos fundamentais de anamnese.
Fernando Barnabé
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