sábado, 28 de novembro de 2009

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (III)


ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO

A maioria das teorias sobre o desenvolvimento é estruturada em estágios, apresentando a criança, em cada um deles, diferentes características.


ESTÁGIOS DE FREUD

- Fase oral (do nascimento aos 12-18 meses): a criança recebe gratificação através da boca, língua e lábios. Nesta fase, sugar e morder adquirem especial importância.

- Fase anal (dos 12-18 meses aos 3 anos): ânus e áreas vizinhas são fonte de interesse e gratificação, principalmente no acto de defecar; nesta fase, é importante o treino do controlo dos esfíncteres.

- Fase fálica (dos 3 aos 5-6 anos): a gratificação é obtida através da estimulação genital. Nesta fase encontra-se o complexo de Édipo. É comum a masturbação e está presente a angústia de castração (temor de perda ou dano dos òrgãos genitais).

- Fase de lactência (dos 6 anos até o início da puberdade): período de relativa tranquilidade sexual entre os anos pré-escolares e a adolescência. As pulsões sexuais são desviadas para objectivos aceites socialmente (estudo, desporto). Formação da consciência e do senso moral e ético (conceitos sobre o certo e errado, o bem e o mal) no final do período.

- Fase genital (da puberdade em diante): as mudanças hormonais dão origem à sexualidade adulta e a um novo tipo de relacionamento (intimidade) com o sexo oposto.


ESTÁGIOS DE PIAGET

- Sensório-motor (do nascimento aos 2 anos): o bebé modifica-se, de um ser que responde principalmente através de reflexos, noutra que é capaz de organizar as suas atividades relativamente ao ambiente.

- Pré-operacional (dos 2 aos 7 anos): a criança começa a usar símbolos, (função simbólica) tais como palavras, imita o comportamento dos outros, mas é ainda ilógica nos seus processos de pensamento, dado o seu elevado egocentrismo.

- Operações concretas (dos 7 aos 11 anos): a criança começa a entender e a usar conceitos que a ajudam a interagir com o ambiente imediato.

- Operações formais (dos 12 a 15 anos até a idade adulta): o indivíduo pode pensar em termos abstratos e a lidar com situações hipotéticas.


FASES

Frequentemente os pais mostram-se ansiosos com os comportamentos dos filhos, normalmente dizemos que é apenas uma fase característica do seu próprio desenvolvimento e que tenderá a desaparecer para dar lugar a outra fase. Talvez não ajude muito quando os pais estão à beira de uma crise de nervos, ou porque o filho está com problemas de sono, ou não se alimenta convenientemente ou porque tem crises de agressividade; mas não deixa de ser uma verdade.

Em relação a estas fases, um primeiro ponto importante a ressaltar, é que, o reconhecimento destes períodos com características marcantes e comuns a todas as crianças de uma determinada idade, ajuda a evitar a frequente tendência dos pais em rotularem os filhos. Muitas das manifestações típicas da fase actual não estarão presentes nas etapas seguintes, justamente por serem transitórias.

Outro aspecto que precisa ser reconhecido, é que, as características destas fases sucedem-se de forma previsível em todas as crianças e cada uma delas deve ser adequadamente vivenciada para que o desenvolvimento ocorra dentro da “normalidade”. Este conhecimento permite um entendimento melhor dos padrões normais do desenvolvimento e os comportamentos esperados em determinada idade, bem como a identificação de eventuais problemas. O que se considera normal numa idade pode ser definitivamente anormal em etapas posteriores.Os problemas podem ser identificados quando as características de uma determinada fase se mantêm presentes, interferindo significativamente nas etapas seguintes. Podem surgir então os desajustes cognitivos, sociais ou emocionais, como por exemplo, a persistência do uso de objectos estimuladores da oralidade ou a dificuldade em abandonar o uso de fraldas nas crianças mais velhas.

A sequência entre as diferentes fases não é automática, já que depende do amadurecimento do sistema nervoso central e das experiências que a criança vivencia. Ela pode demorar mais em algumas delas ou avançar de forma mais rápida que a média noutras, dependendo das características individuais, do ambiente e da estimulação que lhe é proporcionada.
É natural portanto, que possamos relacionar determinadas atitudes ou características do desenvolvimento às etapas vivenciadas por uma criança.

As teorias sobre o desenvolvimento tendem assim a determinar estágios, sendo que, em cada um deles, a criança apresenta características que os diferenciam entre si, age e vê o mundo de outra forma, interage com as pessoas e o ambiente de forma diferente e está preocupada com outro tipo de questões.

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (II)


Em relação ao desenvolvimento da criança e do adolescente existem inúmeras teorias, cada uma delas abordando aspectos diferentes, quer de ordem psicológica, quer de ordem biológica e comportamental. Uma das teorias mais conhecidas é a de Jean Piaget. Nela são referenciados aspectos do pensamento e do comportamento das crianças, considerando a sua passagem por estágios definidos ou mudanças qualitativas de um tipo de pensamento ou comportamento para outro. Socorrendo-se da observação, Piaget verificou que todas as crianças pareciam vivenciar as mesmas espécies de descobertas sequenciais acerca do mundo, cometendo as mesmas espécies de erros e chegando às mesmas soluções. Trata-se de um processo activo onde a criança explora, manipula e examina os objetos e as pessoas no seu mundo.

Sigmund Freud também contribuiu para a compreensão do processo de desenvolvimento da criança ao difundir a ideia de que o comportamento se deve, não apenas a processos conscientes, mas também aos processos inconscientes. O mais elementar dos processos inconscientes, segundo Freud, é uma pulsão sexual instintiva, denominada libido, presente no nascimento e que representa a força motivadora de todo o nosso comportamento. A idéia básica expressa por Freud era a de que, a resolução bem sucedida das várias fases da infância, seria essencial para o “normal” funcionamento do adulto.

Além de Freud, outro teórico psicanalista de grande influência sobre o estudo do desenvolvimento foi Erik Erikson. Partilha com Freud de alguns pressupostos, embora existam diferenças teóricas fundamentais. Erikson não deu tanto ênfase à centralização do impulso sexual, focalizando em seu lugar o surgimento gradativo de um senso de identidade. O seu modelo de ciclo vital apresenta oito estágios, os quais incluem a idade adulta e a velhice. Margaret Mahler, psicanalista, teorizou o nascimento psicológico do ser humano através do processo de "separação/individuação" do indivíduo. Segundo ela, o bebé evolui lenta e gradativamente de um processo de total simbiose com a mãe até adquirir a sua identidade individual. A fase de separação-individuação inicia-se por volta do quarto ou quinto mês de vida e fica completa por volta dos três anos de idade.

Também o pediatra e psicanalista D. W. Winnicott fez uma avaliação original do desenvolvimento infantil, introduzindo os conceitos de objectos e fenómenos transicionais para explicar o processo pelo qual a criança adquire consciência da sua existência como indivíduo. Aqui o importante não é o objecto que o bebé utiliza, mas o uso que o bébe faz dele. Segundo o próprio Winnicott, "o termo objecto transicional descreve a jornada do bebé desde o puramente subjectivo até à objectividade".

Quando falamos das teorias sobre o desenvolvimento infantil, temos que admitir que elas são importantes porque nos ajudam a entender este processo. Elas representam esquemas, que buscam interpretar e organizar dados referentes ao desenvolvimento da criança, observando o seu crescimento e comportamento, bem como o seu relacionamento com o ambiente no qual se insere.

(continua...)

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (I)


Assume cada vez maior pertinência, proporcionar aos agentes educativos (pais, encarregados de educação e educadores em geral) informação, sobre o modo como se processam as fases de desenvolvimento pelas quais passam crianças e jovens. Conhecendo as suas características, poderemos atempadamente dar conta, se um determinado desiquílibrio, uma perturbação ou um medo até, perduram no tempo, e, desse modo, agirmos preventivamente.

A prevenção, é sempre necessária e urgente, independentemente da área a que nos reportamos, mas para prevenir é preciso à priori saber identificar sinais e sintomas e, se possível, evitar o seu surgimento; compreender a sua natureza é também um processo que requer conhecimento de nós próprios e dos outros. Os textos elaborados, não pretendem constituir-se como um manual ou referencial teórico que sustente a acção educativa e pedagógica dos vários agentes educativos, já que cabe ao educador adoptar o modelo ou modelos teóricos que melhor se adaptem ao seu.Tem antes o propósito, de, numa linguagem simples e sem especial relevância técnica, contribuir para o conhecimento das várias abordagens e modelos teóricos no que ao desenvolvimento diz respeito, para além de referenciar os aspectos mais significativos das etapas evolutivas do pré-escolar à adolescência.


Teorias do Desenvolvimento
O desenvolvimento de uma criança já está determinado ao nascimento ou é moldado por experiências posteriores? Já vai longe o tempo em que se defendia a tese, de que “ao nascermos a mente é uma tábua rasa e todo o conhecimento é criado pela experiência”. Actualmente, entende-se o desenvolvimento, nos seus múltiplos aspectos, isto é: como produto da interação entre a natureza, os factores de aprendizagem e os factores genéticos e hereditários.

As informações biológicas para que o desenvolvimento humano se processe são herdadas e estão registados nos nossos genes. É assim que em cada indivíduo ocorre o crescimento; nascem os dentes, surge a linguagem e a locomoção e os hormônios actuam na puberdade. Entretanto, mesmo neste processo, há a necessidade da manutenção de cuidados básicos indispensáveis que incluem a higiene, alimentação, estimulação, afeto e muitos outros. Portanto, o nosso organismo nasce pronto a desenvolver-se, mas está dependente de factores ambientais para que essa evolucâo se processe convenientemente. Muitos aspectos comportamentais estão hoje directamente relacionados à influência genética, tais como a tendência à depressão, ansiedade e agressividade, assim como algumas características individuais, como por exemplo, os traços de personalidade.

Mesmo sendo inatas, estas características serão ou não acentuadas conforme o ambiente no qual o indivíduo se irá desenvolver e pelo estilo de cuidados prestados pelos pais. Se uma criança nasce com tendência a ser agitada ou agressiva, terá o seu comportamento atenuado se conviver com pais tranquilos, carinhosos e afetivos. Os factores de mudança, podem também influenciar significativamente o rumo do seu desenvolvimento, tais como a ida para o infantário, a entrada na escola, a mudança de cidade, a separação dos pais ou a morte de algum familiar.

Um exemplo desta interação é o que ocorre com a inteligência. Ela pode ser parcialmente determinada pela hereditariedade, mas o tipo de lar no qual a criança cresce, o grau em que é encorajada a seguir interesses intelectuais, as suas condições de saúde, a qualidade da estimulação e educação que recebe serão factores que terão efeitos sobre a sua expressão final.

Portanto, o futuro de uma criança começa a ser definido desde a sua fecundação pela herança genética legada pelos pais, mas também pelos cuidados e estímulos que vai receber durante o seu processo de desenvolvimento.

(continua...)

Crianças irrequietas (hiperactivas ou hipercinéticas) (II)


A agitação das crianças hiperactivas, traduzem-se em várias vertentes:- Relacional: as crianças são incapazes de estabelecer uma relação prolongada embora consigam vincular-se.- Psíquica: o próprio psiquismo sofre com a instabilidade.

São crianças incapazes de prestar atenção prolongada numa determinada tarefa.- Desarmonias cognitivas: podem surgir perturbações em diversos sectores.

- Motora: incapacidade para estarem quietas durante muito tempo.- Dificuldades ao nível da motricidade fina.

- Instabilidade psicomotora: crianças instáveis, irrequietas, agitadas, inquietas e hiperactivas. Esta hiperactividade é estéril, ou seja, estas crianças têm dificuldade em construir, em produzir, devido ao excesso de movimento.

Perante este quadro, os pais ou educadores devem ter uma atitude tolerante, embora nem sempre seja fácil consegui-lo.Quanto às causas da hiperactividade, a comunidade científica tem levantado várias hipóteses que passo a assinalar como as mais importantes.


- HIPÓTESE ORGANICISTA

Consideram que a causa da irrequietude e instabilidade da criança provém de uma disfunção cerebral mínima; algures no cérebro haverá uma qualquer disfunção cerebral que produzirá todo este quadro hiperactivo.

- PSICOPATOLOGIA

O contexto da instabilidade é variável. Para uma criança, a instabilidade pode surgir através de uma situação geradora de insegurança e de angústia. A agitação motora, é um sintoma, e, simultaneamente uma defesa contra a angústia. A instabilidade também pode surgir num contexto de relação Sado-masoquista, ou seja, a criança sadiza o outro sabendo que vai ter um castigo. São pois instabilidade de tipo neurótico.Para outros estudiosos, a irrequietude é permanente, endógena, faz parte da personalidade da criança, é o seu mecanismo de defesa fundamental.

Na relação precoce mãe/criança, não foi possível haver um ajustamento entre os dois seres. A mãe dificilmente pôde ter um papel contentor das angústias da criança e devolvê-las sobre outra forma (metabolizadas). Esta é a função “continente” da mãe, poder ser um suporte efectivo das suas ansiedades.

Quando a mãe é capaz de resolver as inquietações da criança e devolvê-las de outra forma, a criança, pouco a pouco, vai sendo capaz de se conter a ela própria. Vai desenvolvendo assim, um sentimento de confiança básica que lhe permitirá a interacção com os outros e a realização de tarefas. Se isto não acontece, a criança irá desenvolver um núcleo de desconfiança básica não acreditando em ninguém. Pode então, desenvolver angústias persecutórias e fugas constantes. Sob este ponto de vista a hiperactividade também pode ser encarada como um modo que a criança encontra para lutar contra um sofrimento depressivo irreparável.

Do meu ponto de vista, não devemos ater-nos apenas a uma hipótese, como representante da verdade; existem sempre muitas variáveis em jogo que é nosso dever equacionar e pesquisar. O que importa, antes demais, é desenvolver com estas crianças uma relação afectiva e securizante, não esquecendo o estabelecimento de limites, para que o vínculo alcançado, possa contribuir para o seu desenvolvimento psicoafectivo e psicomotor.

Uma grande capacidade de tolerância e de humanismo é preciso…

Fernando Barnabé

Crianças irrequietas (hiperactivas ou hipercinéticas) (I)


Irrequietude ou hiperactividade significam o mesmo, são descritivos de movimentação e, como tal, não são uma entidade nosológica (referente a patologia).

A hiperactividade é um sintoma que ocorre em numerosos casos clínicos, por exemplo em crianças psicóticas, em crianças com lesões cerebrais, com perturbações da personalidade e em crianças com problemática neurótica; no entanto este sintoma em regra vem agregado a outros sintomas e o importante é perceber a cauda desta perturbação neurótica. O que há de comum e de diferente?

A criança “normal” é irrequieta até aos dois, três anos, o que é um bom sinal, porque a causa desta irrequietude está relacionada com as aprendizagens do seu funcionamento corporal (locomoção). A criança desloca-se em busca de situações que lhe interessam ou afasta-se das que não lhe agradam. À medida que vão construindo uma mente capaz, é que a aventura motora vai dar lugar à aventura mental – o desenvolvimento da capacidade simbólica. Não existindo capacidade simbólica as crianças não estão aptas a relacionar e estabelecer ligações entre conceitos.

As crianças irrequietas, pelos 5,6 e 7 anos foram crianças que não conseguiram passar da aventura motora para a aventura do pensamento. Então, esta falta de acalmia provêm de onde?Em regra, quando passamos de uma actividade para outra, paramos durante o tempo em que essa situação mostra ter algum interesse. Pode no entanto haver circunstâncias em que a situação não nos agrada, incomoda-nos mesmo e então procuramos outras ocupações. A criança pequena vai à procura de uma tarefa; ou se sente interessada ou a situação incomoda-a; então, rapidamente procura outras experiências. Por detrás desta movimentação excessiva podemos encontrar várias formas de ansiedade que determinam novas procuras. Estas ansiedades podem ter uma natureza depressiva ou persecutória. Nas primeiras, há uma falta de interesse pelas situações; o mal-estar podemos englobá-lo nas ansiedades persecutórias.

Porque é que a criança irrequieta não pára? Será que tudo é desinteressante? Será que os objectos nunca correspondem às expectativas? Esta criança já tem presente um núcleo de personalidade que a leva a construir de um modo depressivo ou persecutório a sua personalidade. Podemos perguntar-nos então, como é que ele se constrói?Houve provavelmente situações precoces que a levaram a construir um self entre "desamparado e perseguido". As suas primeiras experiências não lhe induziram um sentimento de previsibilidade, de confiança básica em relação ao que lhe acontece.

A criança irrequieta, experimenta pois a realidade, de uma forma deformada, o resultado é a procura/fuga constante que vai secundariamente trazer-lhe complicações. Assim, em profundidade, nada sabe, o que acaba por reforçar a sua desconfiança básica, na medida em que encontra poucos aliados externos que a ajudem a contrabalançar a sensação de “nada ser”. Estas crianças necessitam de concentração, porque senão geram-se círculos viciosos que agravam o problema original. Encontram na movimentação excessiva alguma acalmia, porque isso depende delas e são incapazes de estar sentadas, de se concentrarem podendo eventualmente perturbar o regular funcionamento de uma aula. Algumas demonstram agressividade para, dessa forma, provocarem respostas que sejam contentoras da sua ansiedade. Apesar destas problemáticas, crianças há, cujas aprendizagens se processam de forma positiva, embora com algumas dificuldades.

Há professores que têm algumas competências para lidar com estas crianças, enquanto outras apresentam alguma limitações, por desconhecerem o porquê de tanta agitação. Regra geral, estas crianças funcionam melhor em pequenas turmas. Em grandes turmas, se o professor não estabelecer uma boa relação com a criança, esta pode vir a ser excluída e abandonada às suas próprias dificuldades.

Muitas destas crianças dormem mal, sonham pouco, não havendo uma passagem gradual entre a vigília e o sono. Têm com facilidade acidentes, porque não pensam ou pensam mal, devido às suas capacidades excessivas de movimentação. Há como que um ímpeto forte para a aventura, sem uma nítida consciência dos riscos.
(continua...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

As Fobias (II)


Na agorafobia, que é o medo irracional de espaços abertos dos quais a pessoa pode não vir a escapar, sobretudo se não encontrar ninguém que a possa ajudar no caso de um ataque de pânico, o comportamento de evitamento passa por evitar esses lugares, ou enfrentá-los com alguma dificuldade se acompanhados por alguém da sua confiança, que possa conter a sua ansiedade.

Na fobia social, o indivíduo sente um medo irracional face ao contacto com outras pessoas. A ansiedade gerada por ter que falar em público é enorme, por medo do rídiculo ou por medo de ser escrutinada. Saber que os outros podem eventualmente perceber o seu estado de ansiedade, faz com que evitem comer em restaurantes ou frequentar outros locais públicos.

Assim, evitam falar com desconhecidos e apresentam até dificuldades nas suas relaçõesafectivas, por consequência tendem ao isolamento, limitando desse modo a expressão dos seus afectos e emoções. Normalmente a auto estima e a auto confiança desta pessoas é baixa.

Em regra as pessoas com Personalidade Evitante têm maior probabilidade de vir a sofrer desta perturbação.

Nas fobias específicas o medo é canalizado para objectos, animais ou situações específicas indutores de ansiedade, como por exemplo os elevadores, as cobras, os ratos, o sangue, as agulhas, as alturas, etc. Pensar nestas situações pode ser suficiente para que seja despoletado um ataque de pânico.

Os ataques de pânico são episódios que têm uma duração de 20 a 30 minutos, por vezes um pouco mais, são acompanhados por pensamentos de catástrofe eminente, de morte, com reacções somáticas clinicamente significativas: ansiedade excessiva, estado confusional, taquicardia, sensação de opressão no peito, sedurese, boca seca, formigeiros, parestesias. A pessoa pode até pensar que vai ficar louca ou que algo não está bem consigo a nível orgânico.

Os ataques de pânico podem ser expontâneos, não dependendo portanto, de nenhum estímulo ansiogénico; podem ser situacionais, quando a pessoa está exposta a um estímulo fóbico, ou situacionalmente prováveis, quando a pessoa com algum sofrimento enfrenta um estímulo fóbico, surgindo o ataque de pânico à posteriori.

A ocorrência e a frequência dos ataques de pânico é variável. Há pessoas que podem ter vários ataques por dia, e só voltarem a ter passado um mês. Outras têm um ou mais ataques por semana.

É inevitável que a pessoa com fobia e ataque de pânico não esteja quase permanentemente preocupada com o próximo ataque, daí que, se essa preocupação se manifestar durante pelo menos um mês, ela vai constituir uma perturbação de pânico.
CAUSAS
Até meados do século XX, pensava-se que as causas desta perturbação eram apenas psicológicas, devido a conflitos intrapsíquicos não resolvidos, sobretudo na infância, hoje está provado, através de estudos efectuados, que uma maior produção de substâncias neuroquímicas existentes no cérebro, como a serotonina e a dopamina podem provocar perturbações de ansiedade. Estudos comprovaram ainda que existem factores hereditários em jogo. Os familiares biológicos em primeiro grau de pessoas com fobia ou perturbação de pânico têm maior probabilidade de contrair a perturbação. Estudos com gémeos também evidenciaram esses factores hereditários.

TRATAMENTO
Podem utilizar-se os inibidores selectivos de recaptação da serotonina e os inibidores da enzima monoaminooxidase (IMAO) e alguns tipos de terapia, como a terapia Cognitivo-Comportamental que incide sobretudo sobre o sintoma e a sua remissão e as terapias de base psicodinâmica, que incidem sobre as causas, estas, no entanto, podem ser mais morosas. A terapia comportamental utiliza a técnica denominada dessensibilização sistemática. Depois da aprendizagem de algumas técnicas de relaxamento, o paciente é exposto a estímulos ansiogénicos de forma gradativa, o paciente vai relatando ao terapeuta o que está a sentir à medida que os estímulos lhe são apresentados (normalmente utilizam-se diapositivos).
Quando a ansiedade produz mau estar significativo, o paciente informa o terapeuta levantando por exemplo o braço e este suprime a exposição e volta às técnicas de relaxamento. O processo vai decorrendo até que a ansiedade seja suprimida ou possa ser gerida com alguma eficácia pelo paciente.

As técnicas de biofeedback, são também utilizadas. Neste caso existem instrumentos que permitem a monitorização pelo terapeuta, do ritmo cardíaco e doutras funções fisiológicas.
Fernando Barnabé

As Fobias (I)


A ansiedade tem uma função adaptativa. Quando estamos perante um novo desafio, quando entramos pela primeira vez na escola, quando vamos a uma entrevista para um emprego, quando temos que falar em público, experimentamos alguma ansiedade. Ela tem, como dizia uma função adaptativa porque nos capacita a mobilizar recursos cognitivos (a linguagem, a percepção, a memória, a atenção) e fisiológicos através da activação de determinadas glândulas, através da activação do nosso sistema nervoso autónomo. Dessa forma podemos dar respostas mais ou menos adaptadas às solicitações do quotidiano. No entanto, quando estamos expostos durante longos períodos de tempo a emoções negativas, geradoras de ansiedade, de medo, de raiva ou de tristeza, mobilizamos com maior frequência os nossos recursos cognitivos e fisiológicos e, como consequência, as suas funções tendem a ficar comprometidas. Gera-se uma maior excitabilidade e as respostas aos estímulos tornam-se muito menos eficazes e até mesmo desadaptativas. Podem então surgir reações psicofisiológicas, ou psicossomáticas, resultantes de uma prolongada exposição da pessoa a situações geradoras de ansiedade.

As fobias estão classificadas como perturbações de ansiedade conforme expressa o Manual de Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-IV)A palavra fobia, deriva do grego phobos, deusa grega do medo, e significa terror, pânico. A imagem da deusa era utilizada até pelos guerreiros nas suas armas, a fim de aterrorizar os inimigos, tal era a sua fealdade. A fobia é caracterizada por um medo irracional face a um objecto específico ou situação que objectivamente não apresenta qualquer perigo. A pessoa com esta perturbação tem consciência que o seu medo é irracional e que as emoções que o estímulo fóbico despoleta são em regra exageradas.

Como o estímulo desencadeia reacções desagradáveis para a pessoa ela tenta utilizar um mecanismo de defesa que lhe parece mais apropriado - o evitamento.

Evitar as situações geradoras de ansiedade, podem no entanto, limitar consideravelmente a nossa rotina diária. A pessoa, sente-se em regra impotente para controlar a ansiedade, podendo recorrer, nalguns casos, à utilização excessiva de álcool, tabaco ou de outras substâncias nocivas para a saúde. No entanto pessoas há que tentam negar a sua ansiedade apresentando atitudes e comportamentos contra-fóbicos, como por exemplo, alguns amantes dos desportos radicais.

Outras regozigam-se, porque escondem com alguma eficácia as suas emoções, mas isto não quer dizer que não as tenham apresentando, em regra, uma grande excitabilidade psicofisiológica.

(Continua...)