
A obra mais importante legada por Freud foi talvez “A Interpretação dos Sonhos”. “O sonho é a via real para o inconsciente”, escreveu. O próprio Freud, sugerindo a importância do nosso mundo onírico no acesso aos conteúdos inconscientes do psiquismo auto analisou-se através da interpretação dos seu próprios sonhos.
Os sonhos sempre fizeram parte da vida das pessoas, desde a antiga Grécia, onde eram interpretados pelas pitonisas, até às teorias mais recentes que expressam os fenómenos neurológicos.
À Psicanálise, interessa apenas interpretar os sonhos. O seu significado advém das associações livres do conteúdo manifesto, isto é, aquilo que recordamos do sonho: apresentações visuais, auditivas, em regra com alguma lógica, que podem, depois de devidamente analisadas, revelar-nos o conteúdo latente.
Freud, faz referências a três tipos de sonhos – aqueles que fazem de imediato sentido, inteligíveis e como tal integrados na nossa vida; mais frequentes nas crianças do que nos adultos, não deixando lugar para dúvidas. Outros, ainda inteligíveis mas que apresentam algum grau de estranheza, sendo já difícil encontrar um significado entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente, mais frequentes nas crianças, e, por fim os mais habituais nos adultos; sonhos desconexos, sem qualquer lógica, e, em que o conteúdo manifesto desfigura completamente o conteúdo latente. Quando não são confusos, o indivíduo pode não reconhecê-los comos seus.
O sonho, como todo o funcionamento psíquico é multideterminado. À transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto chamamos “trabalho ou labor do sonho”. Consiste no disfarce (a pessoa não tem conhecimento directo) que acontece porque determinadas ideias causam ansiedade e, como tal não são admitidas no consciente. Por exemplo, a ideia A ao querer surgir na consciência sofre uma censura e é obrigada a tansformar-se em B. Como é que o trabalho do sonho se concretiza então? Através de três processos: deslocamento, condensação e figurabilidade. Os dois primeiros são estudados sob o ponto de vista dos mecanismos de defesa, e o último constitui a forma dos dois primeiros se realizarem.
Chamamos “deslocamento” à possibilidade do psiquismo poder transferir de uma representação para outra uma determinada ideia latente; o psiquismo porque não a pode representar directamente, recorre a uma representação e transfere-a para outra. O “deslocamento” dá-se quando uma representação tem algo em comum com a representação anterior. Um exemplo dado por Freud é o do pequeno Hans que tinha medo de cavalos; o que Freud descobriu é que o jovem que tinha do pai uma representação negativa (investimento agressivo) deslocou essa representação para outra – o medo dos cavalos. Uma nova representação é assim eleita como algo com a qual se estabelece uma relação de objecto (relação afectiva) que pode ou não ser gratificante. Trata-se pois de um mecanismo interno insconsciente.
Na “condensação”, pode acontecer que uma vez feito o deslocamento para uma representação, esse deslocamento venha a ser feito para várias representações. É possível então desligar os afectos das representações, e, então, uma só imagem terá vários significados. A “condensação” é pois uma imagem que reúne em si vários afectos desligados das várias representações e é também um mecanismo inconsciente. Para Freud, que observou este mecanismo no seu trabalho de interpretação dos sonhos, a “condensação” procura não só concentrar os pensamentos disseminados do sonho formando unidades novas, mas também criar compromissos e meios termos entre diversas séries de representações e de pensamentos. A condensação, pelo seu trabalho criativo dir-se-ia mais apropriada do que outros mecanismos para fazer emergir o desejo inconsciente frustrando a censura mas ao mesmo tempo torna mais difícil a leitura do texto manifesto do sonho. Podemos dizer então que a “condensação” se assemelha a uma metáfora e o deslocamento a uma metonímia.
A “figurabilidade”, ou representabilidade, aponta para o facto de que todas as ideias se exprimem em imagens. Isto é uma exigência do sonho. É a possibilidade de uma ideia ou ideias poderem ser representadas ou figuradas que orienta o deslocamento. Para que algo seja figurável, é pois necessário que tenha algo em comum. Ex: Aristocrata – Altamente colocado – Torre Eiffel. Assim, um aristocrata pode surgir representado como sendo a Torre Eiffel.
Como vemos, a interpretação dos sonhos pode por vezes representar um processo intrincado e de difícil leitura, quando estão em jogo processos mentais inconscientes. Freud, soube como ninguém escalpelizá-los, através de um invulgar engenho e subtil argúcia.
Fernando Barnabé
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