sábado, 28 de novembro de 2009

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (III)


ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO

A maioria das teorias sobre o desenvolvimento é estruturada em estágios, apresentando a criança, em cada um deles, diferentes características.


ESTÁGIOS DE FREUD

- Fase oral (do nascimento aos 12-18 meses): a criança recebe gratificação através da boca, língua e lábios. Nesta fase, sugar e morder adquirem especial importância.

- Fase anal (dos 12-18 meses aos 3 anos): ânus e áreas vizinhas são fonte de interesse e gratificação, principalmente no acto de defecar; nesta fase, é importante o treino do controlo dos esfíncteres.

- Fase fálica (dos 3 aos 5-6 anos): a gratificação é obtida através da estimulação genital. Nesta fase encontra-se o complexo de Édipo. É comum a masturbação e está presente a angústia de castração (temor de perda ou dano dos òrgãos genitais).

- Fase de lactência (dos 6 anos até o início da puberdade): período de relativa tranquilidade sexual entre os anos pré-escolares e a adolescência. As pulsões sexuais são desviadas para objectivos aceites socialmente (estudo, desporto). Formação da consciência e do senso moral e ético (conceitos sobre o certo e errado, o bem e o mal) no final do período.

- Fase genital (da puberdade em diante): as mudanças hormonais dão origem à sexualidade adulta e a um novo tipo de relacionamento (intimidade) com o sexo oposto.


ESTÁGIOS DE PIAGET

- Sensório-motor (do nascimento aos 2 anos): o bebé modifica-se, de um ser que responde principalmente através de reflexos, noutra que é capaz de organizar as suas atividades relativamente ao ambiente.

- Pré-operacional (dos 2 aos 7 anos): a criança começa a usar símbolos, (função simbólica) tais como palavras, imita o comportamento dos outros, mas é ainda ilógica nos seus processos de pensamento, dado o seu elevado egocentrismo.

- Operações concretas (dos 7 aos 11 anos): a criança começa a entender e a usar conceitos que a ajudam a interagir com o ambiente imediato.

- Operações formais (dos 12 a 15 anos até a idade adulta): o indivíduo pode pensar em termos abstratos e a lidar com situações hipotéticas.


FASES

Frequentemente os pais mostram-se ansiosos com os comportamentos dos filhos, normalmente dizemos que é apenas uma fase característica do seu próprio desenvolvimento e que tenderá a desaparecer para dar lugar a outra fase. Talvez não ajude muito quando os pais estão à beira de uma crise de nervos, ou porque o filho está com problemas de sono, ou não se alimenta convenientemente ou porque tem crises de agressividade; mas não deixa de ser uma verdade.

Em relação a estas fases, um primeiro ponto importante a ressaltar, é que, o reconhecimento destes períodos com características marcantes e comuns a todas as crianças de uma determinada idade, ajuda a evitar a frequente tendência dos pais em rotularem os filhos. Muitas das manifestações típicas da fase actual não estarão presentes nas etapas seguintes, justamente por serem transitórias.

Outro aspecto que precisa ser reconhecido, é que, as características destas fases sucedem-se de forma previsível em todas as crianças e cada uma delas deve ser adequadamente vivenciada para que o desenvolvimento ocorra dentro da “normalidade”. Este conhecimento permite um entendimento melhor dos padrões normais do desenvolvimento e os comportamentos esperados em determinada idade, bem como a identificação de eventuais problemas. O que se considera normal numa idade pode ser definitivamente anormal em etapas posteriores.Os problemas podem ser identificados quando as características de uma determinada fase se mantêm presentes, interferindo significativamente nas etapas seguintes. Podem surgir então os desajustes cognitivos, sociais ou emocionais, como por exemplo, a persistência do uso de objectos estimuladores da oralidade ou a dificuldade em abandonar o uso de fraldas nas crianças mais velhas.

A sequência entre as diferentes fases não é automática, já que depende do amadurecimento do sistema nervoso central e das experiências que a criança vivencia. Ela pode demorar mais em algumas delas ou avançar de forma mais rápida que a média noutras, dependendo das características individuais, do ambiente e da estimulação que lhe é proporcionada.
É natural portanto, que possamos relacionar determinadas atitudes ou características do desenvolvimento às etapas vivenciadas por uma criança.

As teorias sobre o desenvolvimento tendem assim a determinar estágios, sendo que, em cada um deles, a criança apresenta características que os diferenciam entre si, age e vê o mundo de outra forma, interage com as pessoas e o ambiente de forma diferente e está preocupada com outro tipo de questões.

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (II)


Em relação ao desenvolvimento da criança e do adolescente existem inúmeras teorias, cada uma delas abordando aspectos diferentes, quer de ordem psicológica, quer de ordem biológica e comportamental. Uma das teorias mais conhecidas é a de Jean Piaget. Nela são referenciados aspectos do pensamento e do comportamento das crianças, considerando a sua passagem por estágios definidos ou mudanças qualitativas de um tipo de pensamento ou comportamento para outro. Socorrendo-se da observação, Piaget verificou que todas as crianças pareciam vivenciar as mesmas espécies de descobertas sequenciais acerca do mundo, cometendo as mesmas espécies de erros e chegando às mesmas soluções. Trata-se de um processo activo onde a criança explora, manipula e examina os objetos e as pessoas no seu mundo.

Sigmund Freud também contribuiu para a compreensão do processo de desenvolvimento da criança ao difundir a ideia de que o comportamento se deve, não apenas a processos conscientes, mas também aos processos inconscientes. O mais elementar dos processos inconscientes, segundo Freud, é uma pulsão sexual instintiva, denominada libido, presente no nascimento e que representa a força motivadora de todo o nosso comportamento. A idéia básica expressa por Freud era a de que, a resolução bem sucedida das várias fases da infância, seria essencial para o “normal” funcionamento do adulto.

Além de Freud, outro teórico psicanalista de grande influência sobre o estudo do desenvolvimento foi Erik Erikson. Partilha com Freud de alguns pressupostos, embora existam diferenças teóricas fundamentais. Erikson não deu tanto ênfase à centralização do impulso sexual, focalizando em seu lugar o surgimento gradativo de um senso de identidade. O seu modelo de ciclo vital apresenta oito estágios, os quais incluem a idade adulta e a velhice. Margaret Mahler, psicanalista, teorizou o nascimento psicológico do ser humano através do processo de "separação/individuação" do indivíduo. Segundo ela, o bebé evolui lenta e gradativamente de um processo de total simbiose com a mãe até adquirir a sua identidade individual. A fase de separação-individuação inicia-se por volta do quarto ou quinto mês de vida e fica completa por volta dos três anos de idade.

Também o pediatra e psicanalista D. W. Winnicott fez uma avaliação original do desenvolvimento infantil, introduzindo os conceitos de objectos e fenómenos transicionais para explicar o processo pelo qual a criança adquire consciência da sua existência como indivíduo. Aqui o importante não é o objecto que o bebé utiliza, mas o uso que o bébe faz dele. Segundo o próprio Winnicott, "o termo objecto transicional descreve a jornada do bebé desde o puramente subjectivo até à objectividade".

Quando falamos das teorias sobre o desenvolvimento infantil, temos que admitir que elas são importantes porque nos ajudam a entender este processo. Elas representam esquemas, que buscam interpretar e organizar dados referentes ao desenvolvimento da criança, observando o seu crescimento e comportamento, bem como o seu relacionamento com o ambiente no qual se insere.

(continua...)

O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente - Teorias (I)


Assume cada vez maior pertinência, proporcionar aos agentes educativos (pais, encarregados de educação e educadores em geral) informação, sobre o modo como se processam as fases de desenvolvimento pelas quais passam crianças e jovens. Conhecendo as suas características, poderemos atempadamente dar conta, se um determinado desiquílibrio, uma perturbação ou um medo até, perduram no tempo, e, desse modo, agirmos preventivamente.

A prevenção, é sempre necessária e urgente, independentemente da área a que nos reportamos, mas para prevenir é preciso à priori saber identificar sinais e sintomas e, se possível, evitar o seu surgimento; compreender a sua natureza é também um processo que requer conhecimento de nós próprios e dos outros. Os textos elaborados, não pretendem constituir-se como um manual ou referencial teórico que sustente a acção educativa e pedagógica dos vários agentes educativos, já que cabe ao educador adoptar o modelo ou modelos teóricos que melhor se adaptem ao seu.Tem antes o propósito, de, numa linguagem simples e sem especial relevância técnica, contribuir para o conhecimento das várias abordagens e modelos teóricos no que ao desenvolvimento diz respeito, para além de referenciar os aspectos mais significativos das etapas evolutivas do pré-escolar à adolescência.


Teorias do Desenvolvimento
O desenvolvimento de uma criança já está determinado ao nascimento ou é moldado por experiências posteriores? Já vai longe o tempo em que se defendia a tese, de que “ao nascermos a mente é uma tábua rasa e todo o conhecimento é criado pela experiência”. Actualmente, entende-se o desenvolvimento, nos seus múltiplos aspectos, isto é: como produto da interação entre a natureza, os factores de aprendizagem e os factores genéticos e hereditários.

As informações biológicas para que o desenvolvimento humano se processe são herdadas e estão registados nos nossos genes. É assim que em cada indivíduo ocorre o crescimento; nascem os dentes, surge a linguagem e a locomoção e os hormônios actuam na puberdade. Entretanto, mesmo neste processo, há a necessidade da manutenção de cuidados básicos indispensáveis que incluem a higiene, alimentação, estimulação, afeto e muitos outros. Portanto, o nosso organismo nasce pronto a desenvolver-se, mas está dependente de factores ambientais para que essa evolucâo se processe convenientemente. Muitos aspectos comportamentais estão hoje directamente relacionados à influência genética, tais como a tendência à depressão, ansiedade e agressividade, assim como algumas características individuais, como por exemplo, os traços de personalidade.

Mesmo sendo inatas, estas características serão ou não acentuadas conforme o ambiente no qual o indivíduo se irá desenvolver e pelo estilo de cuidados prestados pelos pais. Se uma criança nasce com tendência a ser agitada ou agressiva, terá o seu comportamento atenuado se conviver com pais tranquilos, carinhosos e afetivos. Os factores de mudança, podem também influenciar significativamente o rumo do seu desenvolvimento, tais como a ida para o infantário, a entrada na escola, a mudança de cidade, a separação dos pais ou a morte de algum familiar.

Um exemplo desta interação é o que ocorre com a inteligência. Ela pode ser parcialmente determinada pela hereditariedade, mas o tipo de lar no qual a criança cresce, o grau em que é encorajada a seguir interesses intelectuais, as suas condições de saúde, a qualidade da estimulação e educação que recebe serão factores que terão efeitos sobre a sua expressão final.

Portanto, o futuro de uma criança começa a ser definido desde a sua fecundação pela herança genética legada pelos pais, mas também pelos cuidados e estímulos que vai receber durante o seu processo de desenvolvimento.

(continua...)

Crianças irrequietas (hiperactivas ou hipercinéticas) (II)


A agitação das crianças hiperactivas, traduzem-se em várias vertentes:- Relacional: as crianças são incapazes de estabelecer uma relação prolongada embora consigam vincular-se.- Psíquica: o próprio psiquismo sofre com a instabilidade.

São crianças incapazes de prestar atenção prolongada numa determinada tarefa.- Desarmonias cognitivas: podem surgir perturbações em diversos sectores.

- Motora: incapacidade para estarem quietas durante muito tempo.- Dificuldades ao nível da motricidade fina.

- Instabilidade psicomotora: crianças instáveis, irrequietas, agitadas, inquietas e hiperactivas. Esta hiperactividade é estéril, ou seja, estas crianças têm dificuldade em construir, em produzir, devido ao excesso de movimento.

Perante este quadro, os pais ou educadores devem ter uma atitude tolerante, embora nem sempre seja fácil consegui-lo.Quanto às causas da hiperactividade, a comunidade científica tem levantado várias hipóteses que passo a assinalar como as mais importantes.


- HIPÓTESE ORGANICISTA

Consideram que a causa da irrequietude e instabilidade da criança provém de uma disfunção cerebral mínima; algures no cérebro haverá uma qualquer disfunção cerebral que produzirá todo este quadro hiperactivo.

- PSICOPATOLOGIA

O contexto da instabilidade é variável. Para uma criança, a instabilidade pode surgir através de uma situação geradora de insegurança e de angústia. A agitação motora, é um sintoma, e, simultaneamente uma defesa contra a angústia. A instabilidade também pode surgir num contexto de relação Sado-masoquista, ou seja, a criança sadiza o outro sabendo que vai ter um castigo. São pois instabilidade de tipo neurótico.Para outros estudiosos, a irrequietude é permanente, endógena, faz parte da personalidade da criança, é o seu mecanismo de defesa fundamental.

Na relação precoce mãe/criança, não foi possível haver um ajustamento entre os dois seres. A mãe dificilmente pôde ter um papel contentor das angústias da criança e devolvê-las sobre outra forma (metabolizadas). Esta é a função “continente” da mãe, poder ser um suporte efectivo das suas ansiedades.

Quando a mãe é capaz de resolver as inquietações da criança e devolvê-las de outra forma, a criança, pouco a pouco, vai sendo capaz de se conter a ela própria. Vai desenvolvendo assim, um sentimento de confiança básica que lhe permitirá a interacção com os outros e a realização de tarefas. Se isto não acontece, a criança irá desenvolver um núcleo de desconfiança básica não acreditando em ninguém. Pode então, desenvolver angústias persecutórias e fugas constantes. Sob este ponto de vista a hiperactividade também pode ser encarada como um modo que a criança encontra para lutar contra um sofrimento depressivo irreparável.

Do meu ponto de vista, não devemos ater-nos apenas a uma hipótese, como representante da verdade; existem sempre muitas variáveis em jogo que é nosso dever equacionar e pesquisar. O que importa, antes demais, é desenvolver com estas crianças uma relação afectiva e securizante, não esquecendo o estabelecimento de limites, para que o vínculo alcançado, possa contribuir para o seu desenvolvimento psicoafectivo e psicomotor.

Uma grande capacidade de tolerância e de humanismo é preciso…

Fernando Barnabé

Crianças irrequietas (hiperactivas ou hipercinéticas) (I)


Irrequietude ou hiperactividade significam o mesmo, são descritivos de movimentação e, como tal, não são uma entidade nosológica (referente a patologia).

A hiperactividade é um sintoma que ocorre em numerosos casos clínicos, por exemplo em crianças psicóticas, em crianças com lesões cerebrais, com perturbações da personalidade e em crianças com problemática neurótica; no entanto este sintoma em regra vem agregado a outros sintomas e o importante é perceber a cauda desta perturbação neurótica. O que há de comum e de diferente?

A criança “normal” é irrequieta até aos dois, três anos, o que é um bom sinal, porque a causa desta irrequietude está relacionada com as aprendizagens do seu funcionamento corporal (locomoção). A criança desloca-se em busca de situações que lhe interessam ou afasta-se das que não lhe agradam. À medida que vão construindo uma mente capaz, é que a aventura motora vai dar lugar à aventura mental – o desenvolvimento da capacidade simbólica. Não existindo capacidade simbólica as crianças não estão aptas a relacionar e estabelecer ligações entre conceitos.

As crianças irrequietas, pelos 5,6 e 7 anos foram crianças que não conseguiram passar da aventura motora para a aventura do pensamento. Então, esta falta de acalmia provêm de onde?Em regra, quando passamos de uma actividade para outra, paramos durante o tempo em que essa situação mostra ter algum interesse. Pode no entanto haver circunstâncias em que a situação não nos agrada, incomoda-nos mesmo e então procuramos outras ocupações. A criança pequena vai à procura de uma tarefa; ou se sente interessada ou a situação incomoda-a; então, rapidamente procura outras experiências. Por detrás desta movimentação excessiva podemos encontrar várias formas de ansiedade que determinam novas procuras. Estas ansiedades podem ter uma natureza depressiva ou persecutória. Nas primeiras, há uma falta de interesse pelas situações; o mal-estar podemos englobá-lo nas ansiedades persecutórias.

Porque é que a criança irrequieta não pára? Será que tudo é desinteressante? Será que os objectos nunca correspondem às expectativas? Esta criança já tem presente um núcleo de personalidade que a leva a construir de um modo depressivo ou persecutório a sua personalidade. Podemos perguntar-nos então, como é que ele se constrói?Houve provavelmente situações precoces que a levaram a construir um self entre "desamparado e perseguido". As suas primeiras experiências não lhe induziram um sentimento de previsibilidade, de confiança básica em relação ao que lhe acontece.

A criança irrequieta, experimenta pois a realidade, de uma forma deformada, o resultado é a procura/fuga constante que vai secundariamente trazer-lhe complicações. Assim, em profundidade, nada sabe, o que acaba por reforçar a sua desconfiança básica, na medida em que encontra poucos aliados externos que a ajudem a contrabalançar a sensação de “nada ser”. Estas crianças necessitam de concentração, porque senão geram-se círculos viciosos que agravam o problema original. Encontram na movimentação excessiva alguma acalmia, porque isso depende delas e são incapazes de estar sentadas, de se concentrarem podendo eventualmente perturbar o regular funcionamento de uma aula. Algumas demonstram agressividade para, dessa forma, provocarem respostas que sejam contentoras da sua ansiedade. Apesar destas problemáticas, crianças há, cujas aprendizagens se processam de forma positiva, embora com algumas dificuldades.

Há professores que têm algumas competências para lidar com estas crianças, enquanto outras apresentam alguma limitações, por desconhecerem o porquê de tanta agitação. Regra geral, estas crianças funcionam melhor em pequenas turmas. Em grandes turmas, se o professor não estabelecer uma boa relação com a criança, esta pode vir a ser excluída e abandonada às suas próprias dificuldades.

Muitas destas crianças dormem mal, sonham pouco, não havendo uma passagem gradual entre a vigília e o sono. Têm com facilidade acidentes, porque não pensam ou pensam mal, devido às suas capacidades excessivas de movimentação. Há como que um ímpeto forte para a aventura, sem uma nítida consciência dos riscos.
(continua...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

As Fobias (II)


Na agorafobia, que é o medo irracional de espaços abertos dos quais a pessoa pode não vir a escapar, sobretudo se não encontrar ninguém que a possa ajudar no caso de um ataque de pânico, o comportamento de evitamento passa por evitar esses lugares, ou enfrentá-los com alguma dificuldade se acompanhados por alguém da sua confiança, que possa conter a sua ansiedade.

Na fobia social, o indivíduo sente um medo irracional face ao contacto com outras pessoas. A ansiedade gerada por ter que falar em público é enorme, por medo do rídiculo ou por medo de ser escrutinada. Saber que os outros podem eventualmente perceber o seu estado de ansiedade, faz com que evitem comer em restaurantes ou frequentar outros locais públicos.

Assim, evitam falar com desconhecidos e apresentam até dificuldades nas suas relaçõesafectivas, por consequência tendem ao isolamento, limitando desse modo a expressão dos seus afectos e emoções. Normalmente a auto estima e a auto confiança desta pessoas é baixa.

Em regra as pessoas com Personalidade Evitante têm maior probabilidade de vir a sofrer desta perturbação.

Nas fobias específicas o medo é canalizado para objectos, animais ou situações específicas indutores de ansiedade, como por exemplo os elevadores, as cobras, os ratos, o sangue, as agulhas, as alturas, etc. Pensar nestas situações pode ser suficiente para que seja despoletado um ataque de pânico.

Os ataques de pânico são episódios que têm uma duração de 20 a 30 minutos, por vezes um pouco mais, são acompanhados por pensamentos de catástrofe eminente, de morte, com reacções somáticas clinicamente significativas: ansiedade excessiva, estado confusional, taquicardia, sensação de opressão no peito, sedurese, boca seca, formigeiros, parestesias. A pessoa pode até pensar que vai ficar louca ou que algo não está bem consigo a nível orgânico.

Os ataques de pânico podem ser expontâneos, não dependendo portanto, de nenhum estímulo ansiogénico; podem ser situacionais, quando a pessoa está exposta a um estímulo fóbico, ou situacionalmente prováveis, quando a pessoa com algum sofrimento enfrenta um estímulo fóbico, surgindo o ataque de pânico à posteriori.

A ocorrência e a frequência dos ataques de pânico é variável. Há pessoas que podem ter vários ataques por dia, e só voltarem a ter passado um mês. Outras têm um ou mais ataques por semana.

É inevitável que a pessoa com fobia e ataque de pânico não esteja quase permanentemente preocupada com o próximo ataque, daí que, se essa preocupação se manifestar durante pelo menos um mês, ela vai constituir uma perturbação de pânico.
CAUSAS
Até meados do século XX, pensava-se que as causas desta perturbação eram apenas psicológicas, devido a conflitos intrapsíquicos não resolvidos, sobretudo na infância, hoje está provado, através de estudos efectuados, que uma maior produção de substâncias neuroquímicas existentes no cérebro, como a serotonina e a dopamina podem provocar perturbações de ansiedade. Estudos comprovaram ainda que existem factores hereditários em jogo. Os familiares biológicos em primeiro grau de pessoas com fobia ou perturbação de pânico têm maior probabilidade de contrair a perturbação. Estudos com gémeos também evidenciaram esses factores hereditários.

TRATAMENTO
Podem utilizar-se os inibidores selectivos de recaptação da serotonina e os inibidores da enzima monoaminooxidase (IMAO) e alguns tipos de terapia, como a terapia Cognitivo-Comportamental que incide sobretudo sobre o sintoma e a sua remissão e as terapias de base psicodinâmica, que incidem sobre as causas, estas, no entanto, podem ser mais morosas. A terapia comportamental utiliza a técnica denominada dessensibilização sistemática. Depois da aprendizagem de algumas técnicas de relaxamento, o paciente é exposto a estímulos ansiogénicos de forma gradativa, o paciente vai relatando ao terapeuta o que está a sentir à medida que os estímulos lhe são apresentados (normalmente utilizam-se diapositivos).
Quando a ansiedade produz mau estar significativo, o paciente informa o terapeuta levantando por exemplo o braço e este suprime a exposição e volta às técnicas de relaxamento. O processo vai decorrendo até que a ansiedade seja suprimida ou possa ser gerida com alguma eficácia pelo paciente.

As técnicas de biofeedback, são também utilizadas. Neste caso existem instrumentos que permitem a monitorização pelo terapeuta, do ritmo cardíaco e doutras funções fisiológicas.
Fernando Barnabé

As Fobias (I)


A ansiedade tem uma função adaptativa. Quando estamos perante um novo desafio, quando entramos pela primeira vez na escola, quando vamos a uma entrevista para um emprego, quando temos que falar em público, experimentamos alguma ansiedade. Ela tem, como dizia uma função adaptativa porque nos capacita a mobilizar recursos cognitivos (a linguagem, a percepção, a memória, a atenção) e fisiológicos através da activação de determinadas glândulas, através da activação do nosso sistema nervoso autónomo. Dessa forma podemos dar respostas mais ou menos adaptadas às solicitações do quotidiano. No entanto, quando estamos expostos durante longos períodos de tempo a emoções negativas, geradoras de ansiedade, de medo, de raiva ou de tristeza, mobilizamos com maior frequência os nossos recursos cognitivos e fisiológicos e, como consequência, as suas funções tendem a ficar comprometidas. Gera-se uma maior excitabilidade e as respostas aos estímulos tornam-se muito menos eficazes e até mesmo desadaptativas. Podem então surgir reações psicofisiológicas, ou psicossomáticas, resultantes de uma prolongada exposição da pessoa a situações geradoras de ansiedade.

As fobias estão classificadas como perturbações de ansiedade conforme expressa o Manual de Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-IV)A palavra fobia, deriva do grego phobos, deusa grega do medo, e significa terror, pânico. A imagem da deusa era utilizada até pelos guerreiros nas suas armas, a fim de aterrorizar os inimigos, tal era a sua fealdade. A fobia é caracterizada por um medo irracional face a um objecto específico ou situação que objectivamente não apresenta qualquer perigo. A pessoa com esta perturbação tem consciência que o seu medo é irracional e que as emoções que o estímulo fóbico despoleta são em regra exageradas.

Como o estímulo desencadeia reacções desagradáveis para a pessoa ela tenta utilizar um mecanismo de defesa que lhe parece mais apropriado - o evitamento.

Evitar as situações geradoras de ansiedade, podem no entanto, limitar consideravelmente a nossa rotina diária. A pessoa, sente-se em regra impotente para controlar a ansiedade, podendo recorrer, nalguns casos, à utilização excessiva de álcool, tabaco ou de outras substâncias nocivas para a saúde. No entanto pessoas há que tentam negar a sua ansiedade apresentando atitudes e comportamentos contra-fóbicos, como por exemplo, alguns amantes dos desportos radicais.

Outras regozigam-se, porque escondem com alguma eficácia as suas emoções, mas isto não quer dizer que não as tenham apresentando, em regra, uma grande excitabilidade psicofisiológica.

(Continua...)

A Noção de Traumatismo - As Perturbações Reactivas (III)


Por seu turno, os conflitos de desenvolvimento são inerentes à própria vivência da criança, e correspondem a um estado particular do seu crescimento.

O conflito neurótico é um conflito de desenvolvimento não resolvido; é um conflito interiorizado, representa pois a fixação de um conflito de desenvolvimento que se interiorizou.

Relativamente à neurose, ela representa uma constelação de conflitos neuróticos organizados e estruturados. Caracteriza-se pela dependência da criança em relação aos pais e pela manifestação de condutas sintomáticas que podem ser de tipo histérico, obsessivo ou fóbico.

Eis alguns dos vários tipos de acontecimentos que podemos considerar traumáticos:
1- Da primeira infância até 2/3 anos - Separação brutal da personagem materna ou seu desaparecimento, ou ainda o nascimento de um irmão.
2- Período Edipiano - Traumatismos sexuais, abusos sexuais, operações cirúrgicas, acidentes, mutilações, separações dos pais, a morte de um dos progenitores.
3- Período de Lactência - Lutos, acidentes graves, insucesso escolar, abusos sexuais.


Fernando Barnabé

A Noção de Traumatismo - As Perturbações Reactivas (II)


Será considerada traumática uma situação exterior que entra em ressonância com os temores fantasmáticos, confundindo a realidade com o fantasma, incapacitando a elaboração da situação. Ex: a criança que está em pleno processo edipiano, vê-se confrontado com a morte do pai; o seu desaparecimento vem confirmar as fantasias de morte próprias deste período; a criança pode pensar que, magicamente, matou o pai. Um outro exemplo seria a separação brutal e prolongada de uma criança em relação à mãe (6-18 meses) que podem ultrapassar as capacidades contentoras e adaptativas do Eu.

Deve-se a Masud Kan, psicanalista nascido em Punjab, na Índia (1924-1989) a noção de traumatismo cumulativo, isto é, pequenos micro traumas que ao acumularem-se originam efeitos semelhantes a um trauma de grandes dimensões, por ex: separações repetitivas podem originar sintomas semelhantes a um estado precoce de carência afectiva prolongada.As perturbações reactivas de um ponto de vista nosográfico (descrição da doença) situam-se entre as variações do normal e as organizações neuróticas. Trata-se de perturbações que já não podem ser consideradas como respostas passageiras a um conflito de desenvolvimento, mas que ainda não podem ser consideradas como neuroses organizadas.

Juan Antonio Vallejo, psiquiatra espanhol distingue vários tipos de patologia:
1- Parasitagens no desenvolvimento
2- Os conflitos de desenvolvimento
3- Conflito neurótico
4- Neurose
Quanto às parasitagens no desenvolvimento podemos descrevê-las como tudo o que do exterior pode perturbar o desenvolvimento normal do sujeito. Ex(s): as exigências intensas e prematuras da educação esfincteriana feitas a uma criança que ainda não tem capacidades para satisfazer essa exigência; exigência de imobilidade devido a doença; exigências escolares excessivas.

(Continua...)

A Noção deTraumatismo - As Perturbações Reactivas (I)


A noção de reacção proveio das teorias organicistas que imperaram até ao princípio do século passado. Esta noção permitia atribuir um papel etiológico aos factores do meio e não somente à hereditariedade e aos factores constitucionais do sujeito. Começou a pensar-se nas concepções que atribuíam especial relevância às condições sociais, maus tratos, condições do meio, etc.

Karl Jaspers, (filósofo e psiquiatra alemão) propõe três critérios para apreciar o carácter reactivo de uma perturbação:

1- A perturbação nunca se produziria se não tivesse tido lugar determinado acontecimento;
2- O conteúdo do estado reactivo tem uma relação compreensível com o acontecimento;
3- Se a causa cessa, a perturbação desaparece.Ex: Uma criança vive num meio familiar em que os pais estão a divorciar-se. Sente-se insegura e começa a manifestar sinais e sintomas variados, tais como tiques na vista, dificuldades em adormecer, tristeza, etc.

O estado desta criança está intimamente ligado ao vivido familiar, como tal, se houver uma reconciliação dos pais, as suas perturbações cessarão progressivamente.Julgo no entanto ser pertinente, colocar a seguinte questão: porque é que determinadas crianças manifestam perturbações e outras não? A clínica mostra que não existe uma relação simples entre os acontecimentos observáveis da vida da criança e da patologia que ela pode manifestar. Para julgar do valor traumático ou perturbador de um acontecimento, não nos podemos limitar a descrevê-lo; devemos isso sim, ter em conta, a realidade interna da criança e saber qual a sua estrutura psíquica. A teoria analítica prestou grandes contributos relativamente a estas questões tendo proposto duas visões do traumatismo. Um acontecimento é considerado traumático, quando se trata de uma experiência que num curto espaço de tempo vai confrontar a criança com um aumento excessivo de excitação que não pode ser elaborado e contido normalmente. Isto tem a ver com a teoria do aparelho psíquico; quando há um traumatismo, o equilíbrio do aparelho psíquico é colocado em perigo, o que leva à mobilização de mecanismos de defesa.

(Continua...)

Os Pilares da Saúde Mental


A saúde mental das pessoas implica a avaliação de vários eixos ou dimensões das mesmas, cada um dos quais referindo-se a áreas distintas da sua vida. Todas são imprescindíveis para sustentar e manter a saúde do indivíduo. Assim, quando falamos de perturbações mentais ou de outras problemáticas que impliquem sofrimento psíquico e que podem ser objecto de apoio especializado, devemos considerar diversas áreas para avaliar a saúde mental do indivíduo.

A primeira área a ter em conta refere-se aos problemas mentais ou doenças mentais concretas que podem surgir e pelas quais se solicita apoio clínico. Entre estes estão os transtornos adaptativos, as somatizações, as alterações de comportamento, as depressões, a ansiedade, as alterações do contacto com a realidade ou psicose, as alterações produzidas pelo uso de substâncias e as alterações mentais orgânicas, entre outras.

A segunda área a ter em consideração é a personalidade. Cada indivíduo tem uma personalidade – uma forma de ser e estar na vida – esta personalidade situa-se também num continuum que vai desde a “normalidade” à patologia. Quando se dá um transtorno de personalidade, a saúde mental e as doenças mentais expressam-se de maneira diferente de acordo com a personalidade correspondente; a sua expressão clínica difere pois dependendo do tipo de personalidade e das capacidades e recursos cognitivos do indivíduo.

A terceira área a ter em atenção é se existe uma ou várias doenças médicas que possam estar a influir na alteração mental, ou, inclusivamente, na própria personalidade.

Em quarto lugar, e na medida em que vivemos em sociedade, que implica a família, os amigos, a cidade e as características sociais e políticas do meio, é importante avaliar também a possível existência de problemas psicossociais ou ambientais que podem estar a influir na doença, ou, inclusivamente, que sejam a sua causa ou estejam implicados na cronicidade do problema.

Por último, para entender como ocorre e como se expressa o problema, é necessário avaliar o nível de actividade global do indivíduo, onde podemos incluir a educação, a socialização, a situação laboral, a vida afectiva, etc.

Para avaliar o estado de saúde de um indivíduo devemos atender a todas e a cada uma destas áreas referidas. Para considerar que existe um problema em alguma delas devem existir uma série de requisitos ou critérios diagnósticos, relativamente ao número de sintomas, a intensidade dos mesmos, o nível de desprazer ou incapacidade que produz, entre outros.

Fernando Barnabé

Freud e a Interpretação dos Sonhos


A obra mais importante legada por Freud foi talvez “A Interpretação dos Sonhos”. “O sonho é a via real para o inconsciente”, escreveu. O próprio Freud, sugerindo a importância do nosso mundo onírico no acesso aos conteúdos inconscientes do psiquismo auto analisou-se através da interpretação dos seu próprios sonhos.

Os sonhos sempre fizeram parte da vida das pessoas, desde a antiga Grécia, onde eram interpretados pelas pitonisas, até às teorias mais recentes que expressam os fenómenos neurológicos.

À Psicanálise, interessa apenas interpretar os sonhos. O seu significado advém das associações livres do conteúdo manifesto, isto é, aquilo que recordamos do sonho: apresentações visuais, auditivas, em regra com alguma lógica, que podem, depois de devidamente analisadas, revelar-nos o conteúdo latente.

Freud, faz referências a três tipos de sonhos – aqueles que fazem de imediato sentido, inteligíveis e como tal integrados na nossa vida; mais frequentes nas crianças do que nos adultos, não deixando lugar para dúvidas. Outros, ainda inteligíveis mas que apresentam algum grau de estranheza, sendo já difícil encontrar um significado entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente, mais frequentes nas crianças, e, por fim os mais habituais nos adultos; sonhos desconexos, sem qualquer lógica, e, em que o conteúdo manifesto desfigura completamente o conteúdo latente. Quando não são confusos, o indivíduo pode não reconhecê-los comos seus.

O sonho, como todo o funcionamento psíquico é multideterminado. À transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto chamamos “trabalho ou labor do sonho”. Consiste no disfarce (a pessoa não tem conhecimento directo) que acontece porque determinadas ideias causam ansiedade e, como tal não são admitidas no consciente. Por exemplo, a ideia A ao querer surgir na consciência sofre uma censura e é obrigada a tansformar-se em B. Como é que o trabalho do sonho se concretiza então? Através de três processos: deslocamento, condensação e figurabilidade. Os dois primeiros são estudados sob o ponto de vista dos mecanismos de defesa, e o último constitui a forma dos dois primeiros se realizarem.

Chamamos “deslocamento” à possibilidade do psiquismo poder transferir de uma representação para outra uma determinada ideia latente; o psiquismo porque não a pode representar directamente, recorre a uma representação e transfere-a para outra. O “deslocamento” dá-se quando uma representação tem algo em comum com a representação anterior. Um exemplo dado por Freud é o do pequeno Hans que tinha medo de cavalos; o que Freud descobriu é que o jovem que tinha do pai uma representação negativa (investimento agressivo) deslocou essa representação para outra – o medo dos cavalos. Uma nova representação é assim eleita como algo com a qual se estabelece uma relação de objecto (relação afectiva) que pode ou não ser gratificante. Trata-se pois de um mecanismo interno insconsciente.

Na “condensação”, pode acontecer que uma vez feito o deslocamento para uma representação, esse deslocamento venha a ser feito para várias representações. É possível então desligar os afectos das representações, e, então, uma só imagem terá vários significados. A “condensação” é pois uma imagem que reúne em si vários afectos desligados das várias representações e é também um mecanismo inconsciente. Para Freud, que observou este mecanismo no seu trabalho de interpretação dos sonhos, a “condensação” procura não só concentrar os pensamentos disseminados do sonho formando unidades novas, mas também criar compromissos e meios termos entre diversas séries de representações e de pensamentos. A condensação, pelo seu trabalho criativo dir-se-ia mais apropriada do que outros mecanismos para fazer emergir o desejo inconsciente frustrando a censura mas ao mesmo tempo torna mais difícil a leitura do texto manifesto do sonho. Podemos dizer então que a “condensação” se assemelha a uma metáfora e o deslocamento a uma metonímia.

A “figurabilidade”, ou representabilidade, aponta para o facto de que todas as ideias se exprimem em imagens. Isto é uma exigência do sonho. É a possibilidade de uma ideia ou ideias poderem ser representadas ou figuradas que orienta o deslocamento. Para que algo seja figurável, é pois necessário que tenha algo em comum. Ex: Aristocrata – Altamente colocado – Torre Eiffel. Assim, um aristocrata pode surgir representado como sendo a Torre Eiffel.
Como vemos, a interpretação dos sonhos pode por vezes representar um processo intrincado e de difícil leitura, quando estão em jogo processos mentais inconscientes. Freud, soube como ninguém escalpelizá-los, através de um invulgar engenho e subtil argúcia.

Fernando Barnabé

A Teoria Analítica de Jung


Carl Gustav Jung, nasceu em 1875 em Kesswil, na Suíça. Foi psiquiatra e psicanalista heterodoxo, por discordar do criador da psicanálise, especialmente na importância concedida à sexualidade. Durante vários anos foi o discípulo predilecto de Freud e o seu presumível sucessor na direcção do movimento psicanalítico, porém, nunca conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos envolveriam sempre algum trauma de natureza sexual. Freud, por seu lado, não admitia o interesse de Jung pelos fenómenos espirituais como fontes válidas de estudo em si. O rompimento entre eles foi assim inevitável, no entanto, as autênticas razões de fundo eram muito mais amplas e profundas.

Uma das mais convincentes, é a importância que Jung confere às metas e aspirações futuras do indivíduo, metas não raro manifestadas através dos sonhos. Assim como para Freud o único aspecto mais relevante para o desenvolvimento harmonioso da personalidade eram as determinantes da infância, que se manifestam algumas vezes nos sonhos e geralmente em todo o seu comportamento, Jung sustenta que o homem não deve ficar absorvido pelo seu passado e, pelo contrário, é capaz de alcançar níveis mais complexos e diferenciados. Para Jung, a meta que constitui o nível mais complexo e diferenciado, formando ao mesmo tempo a aspiração máxima, embora nem sempre alcançada pela maioria dos humanos é a constituição de um ego no qual possam ser integradas todas as partes da personalidade, as conscientes e as inconscientes. Este ego complexo e ao mesmo tempo unificado conseguiria assim evitar os dois grandes perigos que o podem colocar à beira da neurose; o conformismo perante as pressões sociais ou de grupo, característico dos egos débeis, e o excesso de confiança nos aspectos da integração construtiva dos aspectos primitivos e inconscientes.

Este último sugere-nos algo já indicado anteriormente, o reconhecimento por parte de Jung do inconsciente, reconhecimento que permite precisamente que seja incluído entre os psicanalistas. No entanto, embora Jung não negue a importância do inconsciente individual originado basicamente pela repressão, atribui uma importância inquestionavelmente maior ao chamado inconsciente colectivo. Nele, ficariam depositadas todas as experiências ancestrais do género humano, as quais estariam cristalizadas nos chamados arquétipos. Desta forma, o inconsciente, e portanto a personalidade, remontaria muito além da infância, até às primeiras experiências do género humano e inclusive além destas.

Jung, foi um notável pensador, de um intelecto fértil e multifacetado; são dele, os conceitos de extroversão e introversão, um dos principais contributos para o estudo da personalidade; o primeiro como atitude básica perante a vida dos indivíduos que privilegiam o mundo externo das pessoas e das coisas; o segundo como atitude dos que vivem orientados para o seu mundo interno, para os seus sentimentos e pensamentos. A sua sede de saber, levou-o a estudar Astrologia considerando-a, ao contrário de muitos pensadores da sua época, um instrumento necessário à compreensão do nosso processo evolutivo.
Perto do fim da vida, sugere que as camadas mais profundas do inconsciente não dependem das leis de espaço, tempo e causalidade, dando lugar aos fenómenos paranormais como a clarividência e a premonição; estabelece então um conceito para estes fenómenos, em que não parece haver uma relação de causa-efeito (acausais), que designou por sincronicidade.

Fernando Barnabé

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Freud e as suas Teorias (II)


Para além de teorizar sobre as instâncias ou estruturas da personalidade, Freud, também se ocupou do seu desenvolvimento. Segundo ele, o desenvolvimento da personalidade coincide basicamente com o desenvolvimento da sexualidade, o que não se estranha, dado o amplo sentido que Freud atribui a este conceito, a de que o ser humano é motivado basicamente pela busca do prazer. A partir daqui a psicanálise defende que a personalidade desenvolve-se conforme os desejos sexuais e libidinosos se vão centrando em diferentes zonas corporais.

A primeira fase é a oral, assim chamada porque nela as satisfações sexuais, porque gratificantes, giram em torno da boca - como o acto de chupar, chuchar, levar objectos à boca, morder, etc. Esta fase dá-se aproximadamente por volta do primeiro ano de idade. Um desenvolvimento harmonioso da personalidade exige a gratificação adequada destes desejos orais.

A segunda fase é a anal que decorre mais ou menos até ao terceiro ano. Nela, o centro da actividade sexual é ocupado pelo ânus e num sentido mais amplo pelo controlo dos esfíncteres e pelos processos de eliminação. São várias as possibilidades de o desenvolvimento da personalidade ser perturbado nesta fase. Citarei algumas; a captação por parte da criança de que o amor dos pais está condicionado a que cumpra as suas exigências no que respeita aos processos de eliminação e limpeza; que a criança vivencie estes processos com certa apreensão e nojo; que encontre a possibilidade de exercer um poder sobre os pais à base do incumprimento das suas funções de evacuação.

A terceira fase denomina-se fálico-edipiana, e dá-se entre os três e os cinco anos, aproximadamente. As manipulações e as explorações que as crianças fazem aos órgãos genitais são a característica mais importante desta fase. Ao mesmo tempo, principalmente no final desta, sentem uma grande atracção pelo progenitor do sexo oposto, acompanhada de ciúmes em relação ao do mesmo sexo, o que é explicado por este surgir como rival no que respeita à posse do outro. Normalmente este conflito afectivo é resolvido mediante uma espécie de compromisso – o menino identifica-se com o pai e a menina com a mãe. Mas se o conflito não for resolvido, se não houver uma boa identificação ao progenitor do mesmo sexo, o desenvolvimento da criança pode sofrer alguma perturbação e na fase adulta é possível dar-mos conta de alguns comportamentos e atitudes que expressam a não resolução do conflito edipiano.

Depois destas fases iniciais e do processo edipiano, a sexualidade entra na chamada fase de latência, não voltando a aparecer até à adolescência ou à puberdade, momento em que a sexualidade surge já como autêntica genitalidade. Ao longo desta etapa adolescente e genital, o indivíduo pode conseguir a emancipação definitiva dos pais e tornar-se adulto.

O factor básico – segundo os psicanalistas – para que a personalidade alcance a maturidade adulta é eu não sofra privações fortes ou traumas importantes nos primeiros anos de vida, ou seja ao longo das primeiras fases. Por exemplo, pessoas que tenham sofrido insatisfações ou privações na fase anal podem tornar-se exageradamente avarentas ou demasiado obsessionadas pela ordem e pela limpeza. Neste sentido, poucos preserveraram tanto como Freud na importância da infância, sobretudo nas determinantes da primeira infância, para a constituição e desenvolvimento da personalidade. É que, uma pessoa afectiva e psicologicamente equilibrada e com capacidade de adaptação ao meio, em regra, não experiencia situações traumáticas na infância que ponham em causa o seu equilíbrio desenvolvimental.

Fernando Barnabé

Freud e as suas Teorias (I)


É de todos conhecido, que a psicanálise, como terapia e como teoria foi uma criação de Sigmund Freud, que, nos finais do século XIX, pôde observar nos seus pacientes neuróticos, que a maior parte das perturbações emocionais se deviam à existência de problemas sexuais reprimidos, embora, o conceito de sexualidade tivesse para ele um significado muito mais vasto do que lhe era atribuído pela linguagem comum. Segundo Freud, a sexualidade não se deve identificar com a “genitalidade”, embora esta esteja incluída naquela.

A sexualidade seria para Freud, todo o tipo de comportamento que resultasse fisicamente gratificante, que produzisse sensações de prazer e, portanto, abrangeria toda a actividade instintiva relacionada com as necessidades corporais. A partir desta ideia básica, a concepção de Freud sobre o homem mudou consideravelmente à medida que o seu trabalho com os seu pacientes neuróticos, lhe ia aportando novos dados (é sabido que Freud tratou alguns casos de histeria, perturbação que, segundo ele, tinha como causa a repressão da actividade sexual, sobretudo nas mulheres). Não esqueçamos que estávamos em plena época vitoriana e as mulheres não tinham, nessa altura, os mesmos direitos que o homem em termos da manifestação dos seus desejos sexuais, para além de outros. As mulheres sobretudo as casadas, eram tidas como objectos sexuais, que não deviam, por questões éticas e morais da época, manifestar desejo ou prazer no acto sexual.

Por volta de 1920 Freud elabora então uma teoria da personalidade que se tornou definitiva e que constituiu uma verdadeira revolução quanto ao modo de estruturação do nosso psiquismo. Segundo ele, seriam três as instâncias básicas da personalidade: o id, o ego e o superego. Freud não quis afirmar que o psiquismo humano era constituído por três partes, porque não foi isso que ele observou no comportamento perturbado ou normal dos seus pacientes; a sua genialidade consistiu em encontrar nesses comportamentos uma série de estruturas ou leis valendo-se dos três conceitos a que acima fizemos referência. Estes conceitos revelaram-se de extrema utilidade para explicar ordenada e sistematicamente os fenómenos psíquicos, não fosse Freud, para além das suas competências na área da Medicina um excelente escritor.

O id seria o conceito que designaria os impulsos, as motivações e desejos mais primitivos do ser humano. Para Freud, em grande parte esses desejos seriam de carácter sexual, tendo em mira o prazer. No início, o ser humano seria todo ele id, já que nessa altura o organismo humano não busca mais que a satisfação das suas necessidades instintivas e através delas o prazer. O id como tal é inconsciente, embora procure alcançar a consciência para desse modo conseguir a realização dos seus desejos. O recalcamento, ou repressão é o mecanismo de defesa que impede, caso ocorra, a tomada de consciência do id. Este mecanismo defensivo mantém o id numa situação inconsciente quando os desejos que lutam por realizar-se não estão de acordo com o ego ou o superego. Freud, a partir de 1920 passa a atribuir também muito importância não só aos desejos sexuais mas também aos desejos agressivos do id.

O ego é o conceito que Freud utiliza para designar o conjunto de processos psíquicos e de mecanismos através dos quais o organismo entra em contacto com a realidade objectiva. O ego seria um guia do comportamento do organismo à luz da realidade. É certo, que o ego faz eco das demandas do id e dos seus desejos, mas a sua função consiste em os satisfazer ou não, segundo as possibilidades oferecidas pela realidade. Não é que o ego não queira o prazer que o id procura, porém às vezes reconhece que tem de suspender a sua procura sob pena de entrar em conflito com a realidade.

Um ego amadurecido, não se assusta ao fazer eco dos desejos do id, ao tomar consciência deles. Ao contrário, um ego infantil e neurótico resiste a trazê-los à consciência, defendendo-se contra eles através da repressão (recalcamento) e outros mecanismos de defesa. Um ego maduro e adulto não se assusta, não teme os desejos instintivos; não quer dizer que os satisfaça a todo o momento, significa somente que os consciencializa e depois satisfá-los ou não segundo seja ou não racional fazê-lo. No ego radicam as funções perceptivas, cognitivas, linguísticas e da aprendizagem, ou seja, todas as funções através das quais o sujeito se adapta ao meio ambiente.

Um dos erros mais correntes, e que, com alguma frequência é cometido também por alguns psicólogos, consiste em acreditar que todos os processos designados pelo ego freudiano possuem a propriedade de ser conscientes. É certo que a maior parte dos mecanismos e processos do ego são conscientes, mas nem todos o são. Freud chegou a esta conclusão ao observar que em certas ocasiões alguns desejos instintivos procedentes do id são rejeitados ou reprimidos pelo ego sem que o sujeito tenha consciência alguma nem dos desejos nem da sua rejeição ou repressão.

A terceira instância da personalidade - o superego - representa as normas e os valores convencionais da sociedade ou do grupo social no qual o indivíduo foi criado e em que está inserido. Diríamos que representa a sociedade dentro do próprio indivíduo, com as suas leis e normas muitas vezes fonte de embaraço e de inibição para a estrutura do ego.É evidente que as exigências do superego se opõem quase sempre aos desejos do id. Este conflito, entre o superego e o id incide directamente no ego, já que tanto o id como o superego procuram que o ego actue de acordo com as suas próprias exigências ou desejos. Normalmente o que o ego faz é procurar uma solução de compromisso, que os satisfaça, embora parcialmente. Um ego maduro consegue normalmente achar esta fórmula conciliatória, a qual, para que seja realmente válida, deverá ter em conta também a realidade ambiental. Poder-se-á dizer que, para Freud, a personalidade consiste basicamente neste conflito entre os desejos instintivos e as normas interiorizadas da sociedade, conflito que se desenrola no grande cenário constituído pela relação mútua entre o ego e a realidade ambiental.

(Continua...)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Método Psicanalítico


A Psicanálise não se pode definir pelo seu objecto, como por exemplo a Biologia; utiliza antes um método que resulta na aplicação de três procedimentos; são eles: a associação livre; a interpretação das resistências e a utilização da transferência.

A ASSOCIAÇÃO LIVRE acontece, quando o paciente na consulta, fala de tudo aquilo que lhe apraz dizer sem que haja qualquer censura prévia. Para entendermos quais os factores que podem interferir no livre curso do seu pensamento, vamos considerar o seguinte:

1- Os estímulos externos a que reagimos são os obreiros das nossas respostas;
2- Os estímulos internos, os estados pessoais (físicos e psíquicos) de cada um de nós determinam a qualidade do estímulo;
3- Os objectivos conceptuais que utilizamos nas associações (perder ou não o fio condutor de um raciocínio);
4- Os derivativos pulsionais de todos os impulsos que, quando recalcados tendem a encontrar uma forma de descarga para poderem libertar-se; aqueles que alimentam o nosso raciocínio e que estão subjacentes aos nossos comportamentos mais visíveis.

Na Psicanálise, a sessão terapêutica organiza-se pois para reduzir os três primeiros factores e dimensionar ao máximo os derivativos pulsionais. As luzes intensas, o divã pouco confortável, as cores garridas das paredes, devem pois ser suprimidos para não poderem influenciar negativamente o fluir da associação livre.

Outro procedimento igualmente importante na Psicanálise é a chamada INTERPRETAÇÃO DAS RESISTÊNCIAS, isto é: tudo o que nos actos e palavras do paciente se opõe ao acesso ao seu inconsciente.

Poderemos definir melhor o conceito de resistência se utilizarmos a teoria do trauma. Em regra, depois de ocorrer uma situação traumática, tendemos a esquecer-nos do sucedido utilizando processos de recalcamento que podem ser devidos a várias motivações contrárias à ética, à moral ou à estética, para não citar outras. Os motivos desta “amnésia” são também os motivos da RESISTÊNCIA. Há como que um processo activo do próprio aparelho psíquico a manter no inconsciente todas as situações traumáticas.

Por último, a UTILIZAÇÃO DAS TRANSFERÊNCIAS. A transferência, designa em Psicanálise, o processo pelo qual os desejos inconscientes se actualizam sobre determinados objectos no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida como uma sensação de actualidade acentuada.Porque é este um procedimento utilizado no método psicanalítico? Porque nos permite perceber o tipo de experiências que o paciente vivenciou na infância e esqueceu, e, por outro lado, utilizar esse conhecimento para a sua cura.

Fernando Barnabé

A Psicanálise - Resenha histórica


Freud, nasceu em1856 em Friburgo (Morávia) e era filho de judeus. O pai, negociante relativamente bem sucedido, até que uma bancarrota o lançou na miséria, teve que montar uma pequena feira junto ao Danúbio em Viena e assegurar dessa forma o sustento e os estudos de Freud.

Freud era um admirador de Oliver Cromwell e de Aníbal (general cartaginês). O primeiro tinha conseguido a condenação à morte de Carlos I, e Aníbal tinha combatido os romanos e alcançado notáveis vitórias; Freud, por sua vez, imbuído de um grande espírito fantasista, desejava derrubar a classe dominante para organizar o seu país.
Para além destes personagens, Freud identificava-se com o pai, achava-o um homem de grandes qualidades, mas, ao mesmo tempo nutria por ele sentimentos ambivalentes, um pouco por culpa do seu primarismo. Não lhe perdoa por exemplo esta frase quando certo dia urinou na cama: “Este rapaz nunca há-de ser ninguém na vida”.
Enquanto estudante, Freud sempre pensou vir a formar-se em Filosofia, tornou-se no entanto médico, dadas as suas carências materiais. Desenvolve posteriormente alguns trabalhos na área da Medicina, conseguindo, com a ajuda de alguns amigos dar as suas primeiras consultas. Consegue mais tarde uma bolsa para estudar em França e especializa-se em neuropatologia.

Assiste a algumas sessões de hipnose conduzidas por Charcot, (1825 - 1893), cientista francês nascido em Paris e um dos maiores clínicos e professores de Medicina de França, que põe em causa o facto da histeria ser uma perturbação exclusiva das mulheres, enquanto Freud começa a colocar algumas dúvidas sobre a eficácia dessas sessões; isto porque, segundo ele, o paciente ao acordar, esqueceria as sugestões e apresentaria alguma dificuldade em elaborá-las mentalmente.

Em paralelo investiga e experimenta diversas técnicas; em lugar da sugestão directa, tenta que o paciente tenha na consulta um papel mais participativo e maior autonomia. Começa então por colocar-lhes algumas questões utilizando as mãos para lhes pressionar a nuca. Suprime mais tarde esta forma de contacto, limitando-se apenas a questionar os pacientes.

Certo dia, uma paciente insurge-se contra o facto de Freud a interromper constantemente e diz-lhe: “Deixe-me pensar livremente”. Com esta advertência, Freud descobre, a PSICANÁLISE, utilizando o método a que deu o nome de associação livre.

O termo Psicanálise, surge em 1896, substituindo os até então utilizados por Freud – análise psicológica ou simplesmente análise.Podemos definir a Psicanálise, como um método de análise e investigação psicológica, que tenta aceder às nossas motivações e padrões comportamentais inconscientes.

No próximo artigo, irei falar-vos sobre os procedimentos que estão presentes no método psicanalítico.

Fernando Barnabé

Ainda o teste de Rorschach…


Como dissemos, aquando da abordagem ao teste de Rorschach, os métodos projectivos utilizados em Psicologia, têm como finalidade, apreender a realidade psicológica do sujeito, isto é o modo como ele vive e como se pensa.

Será oportuno aqui, considerarmos as questões relativas à objectividade/subjectividade quando, como profissionais, utilizamos determinados testes.
Sabemos que psicólogos há, que rejeitam as técnicas projectivas por considerarem que estas não são objectivas e, como tal, utilizam as técnicas psicométricas. No entanto podemos afirmar que a pessoa sujeita a estas testes, como que desaparecem por detrás da quantificação, quer dizer, são reduzidas a um número. Dou-vos um exemplo; será importante e determinante que um determinado sujeito obtenha um resultado óptimo num teste de memória se o indivíduo utiliza essa sua competência de uma forma defensiva?

A psicometria está relacionada com os instrumentos de medida objectiva. A subjectividade, por seu lado, é baseada na intuição e, por vezes, com desprezo pelas técnicas objectivas, o que também é condenável.
A intuição é um dom fundamental, que emana do inconsciente, mas não nos podemos focalizar apenas na intuição, devemos ter também em consideração os métodos objectivos, e, para que nos possamos orientar correctamente, devemos ter uma teoria, um modelo que sustente o nosso pensamento e uma metodologia e instrumentos compatíveis entre si. Não é possível termos como modelo uma teoria psicanalítica e trabalharmos com uma metodologia comportamentalista.

A verdadeira objectividade, não existe por si só, existem sim, indicadores. Toda a realidade externa é investida à luz da nossa própria história e é aqui que se insere as técnicas de Rorschach.

A subjectividade baseia-se na interpretação e corre o risco de se arrastar por movimentos projectivos por parte do analista. A interpretação tem pois, que ser sustentada por provas, sob pena de o sujeito se tornar uma “colónia do nosso pensamento”.

O trabalho psicológico está muito enraizado na experiência psicopatológica; há uma grande necessidade de concluir e de apresentar resultados a todo o custo à luz da Psicopatologia, mesmo por vezes não percebendo em profundidade um determinado caso. Isto é deontologicamente incorrecto; nestes casos devemos, quando dúvidas existem, recorrer a colegas, a fim de podermos confrontar ideias e aclararmos o que à partida se nos afigura pouco revelador.

É pois importante perceber no Rorschach, o encadeamento das respostas do paciente, saber quais são os seus processos de pensamento, as associações que em regra utiliza; as respostas a estas questões é que nos leva a conhecer o sujeito e a procurar a sua individualidade.

Examinar as modalidades dominantes da personalidade do sujeito numa perspectiva de adaptação à realidade externa, é pois, uma função determinante do analista que deve estar despido de pré-conceitos, a fim de não incorrer em julgamentos prévios.

Devemos perspectivar-nos no sentido do “não saber”, para que não confirmemos uma ideia pré-estabelecida.Não podemos deixar que a “colonização do sujeito” alimente a omnipotência do analista. É que uma espécie de novo riquismo intelectual pode tornar perigosa toda e qualquer interpretação.

Fernando Barnabé

Os testes projectivos - o Rorschach


As técnicas projectivas, são muito utilizadas pelos psicólogos como coadjuvantes da entrevista clínica, refiro-me a todos os aspectos relevantes que ele foi capaz de recolher do sujeito, quer através da observação quer através de atenta escuta.

Os testes projectivos baseiam-se num mecanismo psicológico denominado “projecção”. Parte-se do princípio que todos nós, perante um desenho, uma mancha, um borrão, temos algo a dizer sobre ele, isto é, interpretamos o material dado, conforme a nossa estrutura psicológica. Estamos, com esse movimento, a projectar-nos, a dar indicações preciosas ao psicólogo sobre a nossa estrutura da personalidade; personalidade que deve ser vista como uma unidade integrativa.
Um dos testes projectivos mais utilizados na clínica é sem dúvida o teste de Rorschach, psiquiatra suíço que o desenvolveu e aplicou em centenas de sujeitos. O teste consiste em dar possíveis interpretações a dez pranchas com manchas de tinta simétricas em que a partir das respostas obtidas é possível obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo; não esqueçamos porém, que as qualidades psicológicas do testador têm importância nos resultados.

Em suma, o processo de resposta produz-se num contexto em que a interacção e a intersubjectividade estão sempre presentes.

Quando utilizamos o conceito “projecção” ele surge sempre associado à percepção. O estímulo externo é a mancha que tem características perceptivas precisas mas ambíguas. Estas características vão obrigar o sujeito a estabelecer um conjunto de estratégias onde a percepção ocupa um lugar central. Na presença do cartão, o sujeito movimenta-se entre o real e o imaginário, entre o objectivo e o subjectivo.

Os dez cartões da prova de Rorschach, têm características singulares no campo perceptivo, pelo seu carácter unitário ou disperso, sendo susceptíveis de uma criação simbólica centrada em dois eixos: a representação de si e a representação da relação. É justamente pela forma como o sujeito organiza a história em torno das manchas impressas nos cartões, que ele revela a sua problemática fundamental. Percepção e projecção surgem então muito relacionadas, participando na delimitação do MUNDO EXTERNO e INTERNO do sujeito e na sua REPRESENTAÇÃO.

O processo projectivo leva a que só sejam investidas pelo sujeito certas excitações que reactivam traços mnésicos individuais; há uma selecção de estímulos que são integrados no seu sistema pessoal.

Cada um de nós filtra a realidade diferentemente e fá-lo de acordo com motivações pessoais. É a realidade externa, aquilo que percebemos, que vem reactivar os traços mnésicos que referi acima, dando lugar posteriormente ao respectivo movimento projectivo. O sujeito tem que mobilizar-se para ordenar as percepções externas e internas. É possível que o psicólogo assista a oscilações, movimentos subtis entre a percepção e a projecção; há como que uma negociação entre o dentro e o fora. O produto expresso pelo sujeito mostra igualmente uma ressonância fantasmática. A realidade externa, colorida com essa ressonância fantasmática gera um equilíbrio entre o dentro e o fora.

É através do estímulo (cartão) que o sujeito mergulha do processo primário para o processo secundário (o pensamento através da palavra), sendo que o imaginário é aqui extremamente importante. No teste é dito ao sujeito que não existem respostas certas nem erradas e que tem toda a liberdade quanto ao número de respostas a dar (normalmente dá duas respostas). Essas respostas tem um suporte perceptivo, mas espera-se que o sujeito as enriqueça com a sua capacidade de sonhar de imaginar, de ser criativo. A cotação do teste é um processo um pouco moroso, obedecendo a algumas regras, (que dada a sua complexidade não vou aqui referir) que não podem deixar de ser consideradas, de forma a que a subjectividade do psicólogo, possa, na medida do possível, não interferir significativamente no diagnóstico.

Fernando Barnabé

Os Desenhos Infantis


O desenho não é uma ilustração e não serve para medir a inteligência. Ele significa muito mais do que isso; é uma projecção do eu corporal, como tal, pode permitir uma visualização dos conflitos psíquicos e relacionais.
O desenho implica um movimento transferencial; é um compromisso entre a realidade interna e a realidade externa da pessoa, entre os processos primários e secundários.

Uma folha de papel, é, à partida, um espelho, havendo sempre a possibilidade de aí nos projectarmos. Pessoas há, que têm dificuldade em projectar o corpo no desenho, os seus fantasmas e os seus desejos (em regra, os adolescentes e os adultos).

O corpo é eminentemente um esquema que nos fornece coordenadas para o pensamentos e para os afectos, permitindo-nos aceder às representações mentais. A representação mental é pois, função do corpo próprio e toda a representação mental é eminentemente espacial.

Se entre o corpo e o afecto existe uma relação primordial, o desenho é um compromisso entre os nossos fantasmas e as nossas defesas. Assim sendo, é possível aceder à compreensão da realidade interna da pessoa, aos seus desejos e censuras.

As crianças até aos dez anos desenham fundamentalmente figuras humanas, imagens corporais habitadas por fantasmas e desejos. O desenho representa a projecção do Eu Corporal, casas, carros, são formas do corpo metamorfosear-se. É claro que a análise dos desenhos infantis é sempre subjectiva, tal como é único o perfil do psicólogo; no entanto, existem sempre características fundamentais nos desenhos que em norma são interpretadas do mesmo modo; por exemplo, uma árvore sem raízes poderá indicar insegurança, mas se for desenhada com frutos pode dar-nos algumas indicações sobre o investimento da criança relativamente a um ou aos dois progenitores; uma casa dividida pela cor pode representar um indício de alguma problemática entre os pais, etc.

As crianças pequenas começam por fazer rabiscos, garatujas. Quando há conflitualidade a criança risca com grande intensidade ou então desenha sem qualquer pressão, o que pode indicar uma provável inibição e uma falta de expansão do Eu.

Um aspecto a considerar também, é o modo de progressão do desenho; em regra ele faz-se no sentido da verticalidade. A criança adquire a noção do eixo (alto-baixo) e é quando a criança domina o seu espaço interno que começa a horizontalidade.

Paulatinamente a criança adquire um maior controlo motor e convergência visual e começará a desenhar círculos (um dentro e outro fora) representando a diferença entre o Eu e o não Eu. À medida em que acede à possibilidade do espaço de visão da mãe, sem que haja angústia de separação, “autonomiza-se”, criando agora círculos com pernas e posteriormente com braços, o que implica já maior maturação. Mais tarde desenhará de perfil e criará uma identidade própria e vai reconhecer-se ao espelho (quando tal não acontece é porque existem problemáticas graves ao nível da identidade). Na psicose, por exemplo, pode haver dificuldade em desenhar um círculo fechado.

Ter uma identidade, é ter um nome, é ter um rosto e é ter um sexo. O processo de identificação implica uma relação triangular; quando a criança ultrapassa melhor ou pior o Complexo de Édipo, tal, pode ser constatado no desenho através da sua profundidade, por exemplo, a inclusão de determinados elementos – o Sol, as nuvens, os campos, etc.

Quando há um espaço bidimensional e o dentro e o fora coexistem, uma casa, por exemplo, em que o interior é perfeitamente visível, tal, já nos dá uma perspectiva de alguma triangulação.

No chamado desenho de inclusão recíproca isto é, quando a criança desenha um personagem dentro de outro personagem (como nas bonecas russas), o que está dentro representa o mesmo que está fora; aqui, a criança ainda não vive no signo do materno, expressa alguma autonomização, mas também, uma grande necessidade da progenitora.

No desenho tridimensional é possível aceder ao processo de triangulação e ao investimento que a criança coloca nos progenitores. Em regra o Sol simboliza o paterno, uma casa simbolizará o materno.

Quando a criança não apresenta no desenho a tridimensionalidade, reduz as diferenças ao idêntico, tende a desenhar em simetria, e então, todas as árvores serão iguais, bem como as casas e as flores. Em regra estas crianças costumam fazer alergias.

As crianças com dificuldades em desenhar, que não gostam de brincar, que são muito agressivas, evoluíram num quadro de falso self, têm dificuldade em projectar-se através do corpo. Esta dificuldade em desenhar implica que a vida interna do sujeito é pobre e pouco subjectiva. É muito frequente os adolescentes traçarem figuras corporais tipo palito, simulando ou dissimulando, o que pode indicar dificuldades de expressão subjectiva.

Finalmente, na psicose, existe um excesso de vida fantasmática (implica o delírio) em que a imagem do corpo é fragmentada e os personagens, normalmente dissociados na folha, podem surgir suspensos no espaço aéreo (linha psicótica). Há confusão entre o dentro e o fora e, como não existe noção de limite, também não há possibilidade de estabilidade entre o dentro e o fora e um rosto próprio que indique permanência.

Fernando Barnabé